Review #03: Três Homens em Conflito

É muito difiícil encontrar um filme “perfeito”. Não estou falando de um filme excelente, encantador, que te deixa atônito por dias, mas sim de um filme que, por mais que você procure, não consegue encontrar um único defeito. Não há nada de errado. Tudo o que você vê na tela funciona exatamente como deveria funcionar, provoca exatamente a reação esperada da plateia e não mostra nenhuma outra maneira de ser feito. Nesse seleto grupo, adiciono a terceira parte da “trilogia dos dólares” de Sergio Leone, um dos maiores clássicos do “faroeste espaguete”, uma obra-prima estrelada por Clint Eastwood: Três Homens em Conflito.

(o cartaz original realmente invertia os nomes dos personagens)

(o cartaz original realmente invertia os nomes dos personagens)

É difícil encontrar uma maneira de destacar todas as qualidades desse filme sem parecer redundante. Mas vamos nos guiar pela construção da trama, desde os primeiros segundos até os créditos finais. Antes de mais nada, uma salva de palmas para a trilha inesquecível de Ennio Morricone, um “monstro sagrado” da indústria. O assovio icônico de Três Homens em Conflito é o tipo de trilha sonora que pode ser reconhecido em qualquer lugar do mundo.

A abertura de um filme é, pra mim, um elemento crucial na construção da narrativa. Se os primeiros minutos da obra não são capazes de te envolver ao ponto em que você se entrega totalmente àquele universo, o desenvolvimento da história pode ser duramente prejudicado. E, nesse quesito, Três Homens em Conflito dá aula. Os 10 minutos iniciais de puro silêncio, em que nenhuma palavra é dita, em nenhum idioma, e você sente a crescente tensão entre os três caçadores de recompensa atrás de Tuco (Eli Wallach) e a chegada de Angel Eyes (Lee Van Cleef) à casa de seu alvo são de uma perfeição indescritível. Você não precisa ouvir ninguém falar, nenhum texto ou diálogo é necessário. Você simplesmente entende que está entrando num terreno extremamente delicado, em que qualquer palavra pode ter um alto custo.

A introdução dos três protagonistas é também brilhante. O impulsivo e imprevisível Tuco, o “Feio”, salta à tela através de uma vidraça, com um olhar insano e um pedaço de frango na mão, arruinando qualquer expectativa da audiência, ainda embalada pelos tensos minutos iniciais. A figura ameaçadora de Angel Eyes, o “Mau”, cresce na nossa frente aos passos lentos que o levam para dentro da casa de sua próxima recompensa, estabelecendo a natureza sombria do personagem. Por fim, o “Bom”, Blondie (Clint Eastwood) que surge como o herói, resgatando Tuco de um grupo de caçadores de recompensa, apenas para se revelar como o anti-herói, mostrando um compromisso primordial com seus próprios interesses. Em poucos minutos, você já conhece os protagonistas e está pronto para segui-los, questioná-los, amá-los ou odiá-los pelas próximas cenas.

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O uso de três protagonistas, três pontos de vista distintos de três personagens completamente diferentes um do outro pode ser perigoso para o desenvolvimento de uma trama. Felizmente, Sergio Leone consegue balancear com perfeição o tempo de tela e a importância de cada um, de modo que os três parecem se completar em cena, e nenhum parece forçado ou “empurrado” goela abaixo. Pelo contrário, em cada um se concentra um alicerce do filme, de modo que os três principais atores conseguem se destacar tanto individualmente quanto em conjunto. O carisma do “Bom”, do “Mau” e, principalmente, do “Feio” é o motor que faz a trama se mover em harmonia.

Três Homens em Conflito tem ainda o mérito de continuar atual mesmo 47 anos depois de seu lançamento original. Sergio Leone conseguiu produzir uma obra que passa longe de ser datada, além de convencer até o mais atento dos espectadores de que aquela história se passa, de fato, no sudoeste americano (quando foi, na verdade, filmada na Espanha). Diálogos e cenas épicas, de um nível artístico difícil de ser alcançado novamente, mantém o frescor do filme. Impossível não querer pendurar um pôster na parede do quarto de Clint Eastwood e seu olhar desleixado alocando um cigarro no canto da boca.

A sequência final engrandece ainda mais o filme e cumpre de maneira brilhante seu papel. Como todo bom clímax, este é o ponto mais alto de tensão e suspense do filme, aquele momento pelo qual você esperou tanto tempo, mesmo que inconscientemente. Lá estão nossos três anti-heróis, “três homens em conflito”, em que, novamente, o perigo e a ameaça reinam no ar, assim como na abertura do filme. E o longa termina, sem poupar o espectador dos desfechos apropriados para cada personagem, amarrando tudo com as pontas abertas no começo. Sergio Leone, com seu perfeccionismo e atenção a detalhes, consegue nos proporcionar uma experiência sem igual, uma verdadeira obra-prima do cinema. E lembre-se: “Se for atirar em alguém, atire. Não converse.”

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Para a próxima semana, temos a primeira estreia do 52 Reviews! Vamos ao cinema conferir um dos indicados ao Oscar 2014 de melhor filme, além de, é claro, passar por outros clássicos recentes e históricos da do cinema. Os escolhidos são:

  • O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street) – Martin Scorsese – 2013
  • Sangue Negro (There Will Be Blood) – Paul Thomas Anderson – 2007
  • Psicose (Psycho) – Alfred Hitchcock – 1960
  • A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life) – Frank Capra – 1946

Nem preciso dizer que comentários, sugestões, críticas, o que for, são bem-vindas! Fique ligado no blog e não esqueça de compartilhar! Domingo que vem, o resumo da rodada!

Até!

Review #02: A Árvore da Vida

Quando perguntado sobre o que se tratava A Árvore da Vida, e após uma breve explicação (não gosto de me estender dando detalhes de um filme para alguém que ainda não o viu), fui confrontado com a seguinte réplica: “Isso parece a mesma coisa daquele outro filme, Magnólia. Tem certeza que vai fazer uma crítica especial desse?”. Pensando por um segundo, acabei concordando, e por pouco não escolho Sonhos, de Akira Kurosawa, como destaque da semana. Mas então tive de refletir sobre qual filme MERECE uma análise mais profunda, qual deixou uma sensação de que há mais o que se comentar. Foi quando percebi que as semelhanças entre os dois filmes, A Árvore da Vida e Magnólia, não passam da superficialidade de uma sinopse preguiçosa de contracapa de DVD.

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O filme de Terrence Mallick nos leva pela infância de Jack O’Brien, interpretado quando adulto pelo sempre magnífico Sean Penn e, quando criança, pelo surpreendente Hunter McCracken. Em pouco mais de duas horas de projeção, conhecemos sua pacata vida numa cidade do interior do Texas, ao lado de seus dois irmãos mais novos, sua doce e amável mãe, interpretada por Jessica Chastain, e seu rigoroso e rígido pai, interpretado por Brad Pitt.

A trama é retratada através de recortes, momentos, narrações sussurradas de alguns dos personagens e conversas ouvidas aos cantos, sem diálogos abertos e explícitos como num filme “comum”. A direção de Terrence Mallick nos faz acompanhar o nascimento e o crescimento de Jack através de suas próprias lembranças de uma maneira tão agradável quanto folhear um velho álbum de família. São pequenos detalhes, como uma cortina esvoaçante numa tarde nublada, uma brincadeira no quintal de casa com os vizinhos, uma frase que parecia muito mais amarga na época do que hoje em dia, que formam nossa experiência de saborear antigas memórias. E é isso que o filme reproduz, de maneira brilhante, com o olhar delicado de Mallick e as imagens baixas e esféricas (como um olhar de criança) captadas pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki.

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Não só retratando a experiência particular do jovem Jack, o filme é um poema a existência da vida humana na Terra. O longa se inicia nos apresentando os personagens e a angústia da perda de um ente querido, levando-nos a questionar a existência e a bondade de um suposto “Deus”. Ao longo do filme, as narrações em off de alguns dos personagens frequentemente fazem perguntas do tipo “Por que você o deixou ir?” ou “Por que eu devo ser bom se você não é?”, sem deixar claro se o “você” seria Deus, a natureza ou mesmo algum personagem específico. E, pra dar ainda mais profundidade à questão, o filme trata de nos mostrar a origem do universo, a formação do planeta Terra, o surgimento da vida e o da “consciência afetiva” dos seres vivos, aliados aos efeitos visuais práticos e estonteantes de Douglas Trumbull, o mesmo de 2001: Uma Odisseia no Espaço (cujas tomadas do espaço continuam espantosas até os dias de hoje).

Desde sua introdução, A Árvore da Vida nos confronta com a ideia de que, na vida, temos dois caminhos a trilhar: o caminho da “graça” – e, por isso, entende-se o da espiritualidade, a visão poética que temos do universo ao nosso redor – e o caminho da “natureza” – o da razão, da frieza dos estudos científicos. Os dois caminhos são retratados pela imagem que Jack nos apresenta de seus pais. A mãe, doce e meiga, compreensiva e carinhosa, ilustrando o caminho da “graça” (e, por que não, o Deus do amor que a religião nos prega?); e o pai, rigoroso, ríspido, cuspindo ordens e regras morais com seu corte de cabelo militar e sua postura conservadora (Brad Pitt dá um show a parte, diga-se de passagem, compondo um personagem aparentemente superficial com tremenda complexidade e verossimilhança), representando o caminho da “natureza”, que não se importa com a insignificância da vida humana diante do universo, ou o mesmo Deus que por vezes nos castiga, mesmo que, com nossa visão infantil, não consigamos enxergar o motivo.

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Mas é justamente neste ponto que o filme nos entrega seu maior problema. Apesar de nos oferecer os dois caminhos e propor o equilíbrio entre as duas perspectivas ao longo de toda a trama, o final simplesmente abraça uma das alternativas e esquece da outra. É como se o diretor dissesse “Ok, te apresentei as duas opções, agora deixe-me mostrar por que ESTA é melhor do que AQUELA”. O filme simplesmente não nos permite concluí-lo à nossa maneira, com a nossa própria interpretação pessoal, o que pode causar certo desconforto no espectador que, simplesmente, não concordar e não se sentir convencido pelo argumento apresentado na sequência derradeira.

Outro problema é o personagem de Sean Penn, o próprio Jack quando adulto, que mal aparece no filme após o primeiro ato. Isso acaba deixando no espectador a vontade latente de querer encará-lo e conhecer sua vida tendo como base a infância que acabamos de assistir. Mas é só uma curiosidade, nada que estrague a experiência do filme.

Essa lacuna, aliás, é muito bem preenchida pela interpretação surpreendente do jovem Hunter McCracken, que tinha apenas 12 anos de idade quando filmou A Árvore da Vida. Sua presença e postura diante da câmera mostram a confiança de um ator veterano, que não se sente intimidado pelos olhares da equipe técnica e da plateia nem por um instante. O garoto consegue expor a angústia de seu personagem através de olhares e expressões faciais bem nítidas, nos colocando na pele do menino que explora e descobre a vida na pré-adolescência.

Sim, o filme tem problemas, mas nada que seja capaz de tirar o mérito de seus realizadores. Uma experiência tocante e esteticamente impressionante, fruto da visão única de Terrence Mallick e sua equipe. Recomendação de primeira linha do 52 Reviews.

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E chagamos ao fim da nossa segunda semana. Depois de pararmos para estudar técnicas e criadores renomados, hora de curtir um pouco a “magia” do cinema, jogarmo-nos na chamada “suspensão da crença” e saborear o prazer e a diversão de um bom filme. Mas sem esquecer que, no fim das contas, estamos aqui pra estudar a sétima arte. Para a próxima parada, os filmes selecionados são:

  • 007: Operação Skyfall (007: Skyfall) – Sam Mendes – 2012
  • Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo) – Sergio Leone – 1966
  • O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d’Amélie Poulain) – Jean-Pierre Jeunet – 2001
  • Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) – Stanley Kubrick – 1971

Mais uma vez, comentários, sugestões, críticas, o que for, são bem-vindas! Fique ligado no blog e não esqueça de compartilhar! Domingo que vem, o resumo da segunda rodada!

Até!

Review #01: Magnólia

Enquanto selecionava os 4 primeiros filmes para esse projeto, revisitando meu próprio catálogo e vasculhando páginas no Internet Movie Database (IMDb), me deparei totalmente por acaso com o filme Magnólia, de 1999, do cineasta Paul Thomas Anderson, diretor do excelente Boogie Nights, de 1997. “Gosto de Boogie Nights, e esse filme parece ter um bom elenco. Vou assistir”, pensei. E foi assim, por uma coincidência do universo, um lance de sorte, que me deparei com esta obra-prima da sétima arte.

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Acaso, sorte, azar… são alguns dos temas do filme. Isso sem citar amor, escolhas, arrependimentos, identidade… não há como sintetizar todo o conteúdo desta obra em apenas um tema. É impossível dizer do que se trata este filme em poucas palavras. Eu poderia dizer que é um filme sobre a “vida”, mas seria muito pretensioso da minha parte. Ou não.

A trama percorre um dia na vida de 9 personagens, todos delicadamente conectados, como as pétalas de uma flor da espécie magnólia. Temos Claudia Gator (Melora Walters), jovem viciada em cocaína e nutrida de um péssimo relacionamento com seu pai, o apresentador de TV Jimmy Gator (Philip Baker Hall). Este, por sua vez, encara o surgimento de um câncer com todos os fantasmas de erros do passado que voltam para assombrá-lo em seus últimos momentos, enquanto apresenta um programa de perguntas e respostas estrelado por crianças. Donnie Smith (William H. Macy) é um dos ex-astros do programa, e luta hoje para entender seus próprios sentimentos e as consequências da “fama”. Já Stanley Spector é a atual joia do quiz show, lidando com a pressão que vem de todos os lados por ser o “mais inteligente”. O programa foi criado por Earl Partridge (Jason Robards), paciente terminal de um câncer no cérebro que também encara as consequências de atos do passado. Sua esposa, Linda Partridge (Julianne Moore) é uma histérica viciada em remédios, que se culpa pela atual situação do marido. Ao lado dela, está Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), enfermeiro do velho Earl que é incumbido por seu amor paternal à encontrar o filho perdido do ex-magnata, Frank Mackey (Tom Cruise). Este, por fim, apresenta um programa de auto-ajuda para homens pouco confiantes que querem conquistar mulheres, enquanto tenta esconder seu próprio passado de si mesmo.

E é isso. Nove personagens, que se desenvolvem, crescem, se contorcem, te encantam com toda a sua complexidade, seu defeitos, desvios de caráter e qualidades únicas. O filme tem três horas de duração, muito bem balanceadas pelo (brilhante) diretor Paul Thomas Anderson, que consegue, com maestria, manter interessado até o mais distraído dos espectadores durante todo o tempo. Não há momentos de monotonia no filme. Com movimentos rápidos e fluentes de câmera, cortes precisos de cenas que te mantém inteirado da situação de cada um dos personagens o tempo todo, sempre tem algo acontecendo em Magnólia. Você nunca fica cansado de um personagem, contando os minutos para que a história volte a dar atenção a outro. O envolvimento do espectador com cada um deles tem a mesma profundidade.

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O filme tem inúmeras camadas. A quantidade de simbologias e interpretações que se pode encontrar só na primeira vez que se assiste ao longa é imensa, desde referências metalinguísticas a passagens bíblicas. Magnólia é o tipo de obra que fica na sua cabeça por horas, dias, semanas depois, martelando seus pensamentos, exigindo que você o assista de novo. E a cada vez que você o assiste, descobre detalhes que antes passaram despercebidos, interpretações diferentes, e o filme só melhora com o passar do tempo.

No aspecto técnico, impecável: um roteiro liso, sem falhas, guiado por uma direção que não te deixa se perder diante da complexidade dos personagens, brilhantemente compostos por cada um dos atores, com destaque para Tom Cruise, em uma performance memorável que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

No aspecto artístico, bem… aí cabe a cada um. Como qualquer boa obra de arte, o filme exige a participação do espectador, que deve preencher as lacunas “físicas” da trama com sua própria interpretação pessoal. O clímax é altamente subjetivo, deixando para o público a função de dar sentido à obra, tornando Magnólia um filme único para cada um que o assiste. Como uma aula de narrativa, uma reviravolta inacreditável no final só reforça o que o prólogo estabelece lá no início: coisas acontecem. Por mais inesperado que possa ser, e por mais que não pareça fazer o menor sentido, algo tão bizarro quanto uma chuva de sapos pode cair sobre as nossas cabeças a qualquer momento, alterando totalmente o curso das nossas vidas. E a nossa vida não para, até que a gente aprenda. Impossível não se identificar e não se apaixonar por Magnólia. A primeira grata surpresa do projeto.

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Muito bem, esta foi a primeira rodada do 52 Reviews. Após passarmos pelo cinema alternativo e demasiadamente “show-off” de Lars Von Trier em Anticristo; um dos muitos retratos cruéis da guerra do Vietnã que Hollywood nos proporciona em Apocalypse Now; e uma viagem nostálgica à magia do cinema dos anos 50/60 em Bonequinha de Luxo, hora de apontarmos para nossa próxima parada. Para esta semana, os filmes escolhidos são:

  • A Árvore da Vida (The Tree of Life) – Terrence Malick – 2011
  • Sonhos (Dreams) – Akira Kurosawa – 1990
  • Chinatown – Roman Polanski – 1974
  • Intriga Internacional (North by Northwest) – Alfred Hitchcock – 1959

Mais uma vez, comentários, sugestões, críticas, o que for, são bem-vindas! Fique ligado no blog e não esqueça de compartilhar! Domingo que vem, o resumo da segunda rodada!
Até!