Review #24: Malévola

O sonho de Walt Disney de contar histórias e encantar a plateia do cinema através da animação ganhou vida ultrapassando todos limites imagináveis. Hoje, a Disney produz conteúdo para diversas mídias e é presença incontestável na vida de milhões de pessoas ao redor do mundo. Seus filmes ajudaram a moldar o caráter de diversas gerações, a definir arquétipos e a utilidade de recursos narrativos em histórias infantis. O estúdio tem noção de sua responsabilidade, e quando ele toma a decisão de refilmar um clássico conto de fadas para um novo público, é preciso prestar atenção: podemos estar diante dos alicerces morais de amanhã. Como separar o bem do mal, o amor do ódio, o herói do vilão, nos tempos atuais? É isso que Malévola se propõe a responder. Para uma criança de 5 anos, é claro.

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Não se engane, não estamos falando de uma obra reflexiva ou de uma discussão filosófica carregada de conteúdo. Malévola é, na superfície e em seu interior, apenas um filme de fantasia para crianças. Na trama, a lenda da Bela Adormecida é recontada sob a perspectiva da principal vilã da história original: a bruxa Malévola (Angelina Jolie). Que, na verdade, não era uma bruxa de origem, mas uma fada que foi corrompida pela maldade e ambição do homem. Cheia de amargura, ela roga o já conhecido feitiço contra a princesa Aurora, apenas para se arrepender mais tarde e protegê-la durante toda sua vida. No fim das contas, o beijo de amor verdadeiro que a desperta de seu sono profundo vem da fada-madrinha/bruxa-má, deixando uma nova lição para o atual público: a de que romance e amor podem ser coisas bem diferentes.

A protagonista vivida por Jolie pode não apresentar um conceito novo sobre a “bondade vestida de maldade” – Shrek já apresentava esse tema para as crianças em 2001 -, mas ao transformar uma vilã conhecida do imaginário do público em heroína, Malévola faz muito mais do que ensinar a não julgar o livro pela capa. Ao longo do filme, acompanhamos como a aparente inocência e bondade de um menino encanta a pequena fada em seu reino de fantasia. Apenas para que, mais tarde, se decepcione com a real índole de Stefan (Sharlto Copley), que corta suas asas pela ambição de se tornar rei. É fácil para qualquer criança entender como aquela situação chateia a protagonista e justifica suas ações. O longa não tenta inocentar Malévola a todo custo: quando ela age como vilã, ela é A VILàda história, do figurino à postura. Quando demonstra seu lado bondoso, também é fácil identificar.

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A transformação da protagonista, de heroína à vilã e depois de volta à heroína, se dá de forma bem simples. Apenas uma caminhada pelo reino encantado e Angelina Jolie abandona os trajes humildes, adota a coroa de chifres e transforma o clima daquele mundo de fantasia. Nada de diálogos complexos ou estudos profundos de personagem. A mudança em Stefan se dá da mesma maneira, por meio de uma simples troca de falas entre ele e o rei (Kenneth Cranham). O carinho que surge entre Malévola e Aurora (Elle Fanning), da mesma maneira, se estabelece por meio de rápidos cortes. A maior parte da história do filme não é contada pela câmera ou pelo roteiro, mas pelo design de produção e pela direção de arte.

O diretor Robert Stromberg vem dos bastidores de Hollywood. Atuou no departamento de efeitos visuais de longas como Jogos Vorazes, As Aventuras de Pi e 2012, só para citar alguns exemplos mais recentes. Sua inexperiência é evidente na forma que ele conduz a narrativa, como quem edita um videoclipe, investindo em tomadas burocráticas que pouco exploram a beleza dos cenários – reais e de computação gráfica. As cores, os figurinos, a maquiagem, a trilha sonora e, principalmente, os efeitos visuais do filme fazem o papel de contar a maior parte da história. Desde a transformações dos personagens até a atmosfera mágica, tudo em Malévola depende do competente (porém pouco expressivo, é verdade) departamento de arte.

Como remake, o novo filme da Disney funciona bem: se mantém fiel ao material original e introduz novas ideias, sem parecer uma atualização desnecessária. Como filme por si só, considerando o público-alvo, também tem sucesso. A história é bem contada, apesar de não se arriscar em subtramas ou reviravoltas muito complexas para as cabecinhas infantis que tenta conquistar. O carisma de Angelina Jolie mantém o interesse da audiência no que se passa na tela durante todo o tempo. Malévola mostra que, não importa a idade, sempre temos disposição para suspender nossa crença e embarcar em um conto de fadas. Essas histórias têm, mesmo para os adultos, muito o que ensinar.

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Review #23: X-Men – Dias de um Futuro Esquecido

Quando os X-Men chegaram aos cinemas pela primeira vez em 2000, o terreno para adaptações de quadrinhos em Hollywood ainda não era tão fértil como hoje. É possível dizer que, graças ao filme de Bryan Singer, a indústria se deu conta, pra valer, do potencial dos super-heróis como subgênero na tela grande. Se não fosse por X-Men, filmes como Os Vingadores, Batman Begins (e suas excelentes sequências) e Homem-Aranha (e seu reboot) jamais teriam visto a luz do dia. Ou, pelo menos, não com um orçamento tão grande. Singer foi o primeiro cineasta a pensar que aqueles personagens fantasiosos e aquelas histórias coloridas e cheias de ação e aventura poderiam, de alguma maneira, carregar um conteúdo adulto da melhor qualidade. Mais até do que isso: que poderiam funcionar no cinema. Com alguns deslizes no caminho e determinada a se reestabelecer nesse mercado (surpreendentemente) competitivo, a franquia X-Men chegou em 2014 a um de seus melhores capítulos, quase como um revival para os fãs da série: Dias de um Futuro Esquecido.

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Antes de mais nada, é preciso dar nome aos bois: X-Men – O Confronto Final (2006), X-Men Origens: Wolverine (2009) e Wolverine – Imortal (2013) foram acidentes de percurso. Os dois primeiros conseguem encabeçar a lista dos piores filmes baseados em quadrinhos de todos os tempos. Talvez fiquem entre alguns dos piores filmes da década! Na última aventura solo de Wolverine, o que poderia ter sido um bom filme acabou arruinado pelo desastroso terceiro ato. X-Men: Primeira Classe (2011), porém, foi a primeira tentativa da Fox de recuperar o bom trabalho iniciado por Singer mais de dez anos antes. E acabou se tornando o melhor filme da franquia. A produção meio que ensaia um reboot para a série, prejudicada com a presença de tantas mãos mexendo onde não deveriam. Dias de um Futuro Esquecido, porém, chega três anos depois com missão de fazer a já tardia limpeza, sem precisar descartar o que de fato funcionou no passado.

Voltando a dirigir um filme dos mutantes após 11 anos, Singer arruma toda a bagunça cronológica deixada por nomes como Brett Ratner e Gavin Hood, além de, principalmente, descartar o que foi feito de pior com os personagens em sua ausência. Para isso, o cineasta resgata nos quadrinhos um conceito que sempre funciona bem nesses casos: viagem no tempo. Na trama, levemente inspirada no arco de histórias que Chris Claremont e John Byrne publicaram na década de 1980, os mutantes enfrentam a eminência da extinção num futuro apocalíptico não tão distante. Para salvar a espécie e tentar evitar a morte de milhões de pessoas, Wolverine tem sua consciência transferida para seu corpo mais jovem da década de 1970 para reunir os X-Men e alterar momentos-chave da História.

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Bryan Singer é, além de um competente cineasta, um grande fã de histórias em quadrinhos. Ele entende o que significam aqueles personagens e sabe como adaptá-los para uma outra mídia. Ao insistir em imprimir sua visão particular sobre aquele universo, o diretor nem sempre consegue agradar à todos. Foi assim com Superman – O Retorno (2006): um filme que aposta numa abordagem bem específica do super-herói da DC, mas que, enquanto longa de ação, não empolga o tanto quanto seus fãs gostariam. Singer também tem uma maneira de filmar que é, de certa maneira, burocrática. Ele pode não ser nenhum mestre em blockbusters de verão, mas sabe conduzir, com precisão, sequências de ação bastante agitadas. O diretor apenas peca por não introduzir a catarse ao expectador no momento certo, tornando algumas de suas cenas um pouco monótonas para o público menos atento. Seu talento em desenvolver dramas e diálogos ricos em conteúdo, porém, é um destaque em seu trabalho. Tudo isso está presente em Dias de um Futuro Esquecido. Para o bem ou para o mal.

O filme soa claramente como um corretivo para os erros do passado, mas não tem o mesmo êxito de seu antecessor, Primeira Classe, dirigido por Matthew Vaughn e com Singer apenas entre os produtores. Se a ausência de Hugh Jackman abria espaço para James McAvoy (Professor X) e Michael Fassbender (Magneto) conduzir brilhantemente a narrativa, o mesmo não acontece neste filme. Wolverine é, mais uma vez, o centro das atenções, por mais que os outros personagens tenham mais destaque. Mesmo a relação entre os dois líderes mutantes consegue um bom tempo de tela, mas é obrigada a rivalizar com o apelo do astro de Hollywood. Enquanto Fera (Nicholas Hoult) é reduzido a um mero enfeite no elenco; Mercúrio (Evan Peters) existe só para acirrar a rivalidade entre os estúdios Disney e Fox (apesar de sua passagem no filme ser memorável); e outros mutantes estarem ali apenas para cumprir funções específicas do roteiro, quem ganha um destaque desproporcional é a Mística de Jennifer Lawrence.  A supervalorização pós-Oscar da atriz parece ter afetado diretamente a produção do filme, que precisa lidar com mais esse fator externo.

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Bryan Singer tenta aqui retomar a narrativa de onde parou em X-Men 2 (2003). A trama repercute mais uma vez o tema do preconceito e da intolerância na sociedade, apresentando um leque de pontos de vista que afetam e são afetados diretamente por eventos do mundo real, como a morte de JFK, a política de Richard Nixon, etc. McAvoy, Fassbender, Jennifer e companhia fazem, como era de se esperar, um trabalho admirável. O drama de cada personagem é muito bem trabalhado, tornando-os complexos e justificando suas as ações de maneira verossímil. Os X-Men representam as minorias do nosso planeta, e Singer faz questão de elucidar a discussão sobre os dilemas pessoais e globais que a essas minorias trazem à sociedade através da metáfora dos super-heróis. Mesmo sem seguir a receita dos gibis à risca, o diretor acredita nesses personagens como fontes de reflexões adultas, e se recusa a tratá-los como produtos de puro entretenimento – como, muitas vezes, Hollywood costuma fazer.

O longa precisa lidar com uma série de obstáculos: a briga entre Disney e Fox que exige a presença de Mercúrio no filme, o capricho do elenco, a tentativa de repetir o sucesso de Primeira Classe e, ao mesmo tempo, a obrigação de colocar a franquia nos trilhos. Mesmo com tantos fatores contrários ao seu sucesso, Dias de um Futuro Esquecido funciona muito bem como filme e ainda faz a lição de casa. Tomando uma série de licenças artísticas, é verdade. O excelente elenco, a belíssima produção e, principalmente, a eficiente direção não são afetados pelos problemas dos bastidores. Os X-Men estão de volta ao mercado e deixam claro sua missão de rivalizar diretamente com os Vingadores da Marvel. No fim das contas, Dias de um Futuro Esquecido faz justiça ao universo dos quadrinhos e ao da telona, revitalizando os personagens e abrindo caminho para um oceano de possibilidades. Bem-vindos de volta.

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Review #22: No Limite do Amanhã

Hollywood já tentou levar videogames para o cinema mais de uma vez. Raros são os casos de sucesso. A maior dificuldade dos cineastas, na maioria das vezes, parece ser decidir sobre qual abordagem seguir. Lara Croft: Tomb Raider (2001, Simon West) aposta na sensualidade da protagonista, vivida por Angelina Jolie, e tenta reproduzir o cenário de mistério e aventura dos games. Trágico. A série Resident Evil, por outro lado, investe na empolgação infantilizada das edições mais recentes do game, abrindo mão da fidelidade ao conceito e à trama do material original. Mas até que consegue cumprir o que promete, e que os fãs tenham paciência. Em 2014, a indústria conseguiu, pela primeira vez, adaptar por completo a estrutura narrativa de um jogo eletrônico. E justamente numa obra adaptada… de uma história em quadrinhos. Seria legal jogar No Limite do Amanhã.

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Na trama, inspirada no mangá japonês “All You Need is Kill”, Tom Cruise vive um relações públicas do exército norte-americano no meio de uma guerra contra forças alienígenas. Com o avanço dos inimigos extraterrestres, ele acaba sendo forçado a se juntar aos combatentes humanos no campo de guerra. Mesmo vestindo um exoesqueleto, com metralhadoras, super-força, agilidade e tudo o mais, o recém-formado soldado acaba morrendo em ação. Ao melhor estilo Feitiço do Tempo (1993, aquele com o Bill Murray), Cruise começa a reviver o mesmo dia “over and over again”, toda vez que é morto em combate, mas mantendo a memória do dia apagado.

E é com essa premissa de ficção-científica e ação que No Limite do Amanhã se garante como uma ótima diversão de fim de semana. Ao repetir as mesmas ações incessantemente, sempre morrendo e começando tudo de novo, o filme evoca imediatamente a memória daqueles saudosos videogames arcade, em que o jogador precisava terminar o jogo inteiro sem a opção de checkpoint (ou save point, como é hoje). O cenário é sempre o mesmo, as pessoas têm sempre as mesmas reações, os inimigos sempre se comportam da mesma maneira, e é com isso em mente que o protagonista/jogador precisa encontrar maneiras de passar de fase e ir cada vez mais longe em sua jornada. Sem esquecer de garantir a diversão do expectador no percurso.

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No que diz respeito à ação, os experientes nomes envolvidos na produção tornam o investimento do estúdios mais seguro. O diretor, Doug Liman, é o mesmo responsável pela trilogia Bourne, com Matt Damon. O principal roteirista, Christopher McQuarrie, tem no currículo títulos como Os Suspeitos (1995), O Turista (2010) e Jack Reacher (2012): bem ou mal, sucessos razoáveis de bilheteria. Tom Cruise, por sua vez, bem… é Tom Cruise. Como um exímio stuntman, dispensa o dublê em grande parte do filme. Com mais de 30 anos de carreira, o ator mostra aqui também toda a sua desenvoltura ao criar um herói ingênuo e inseguro que, aos poucos, conquista confiança e a empatia do público. Num processo bastante natural, um personagem incrivelmente detestável e antipático se torna o típico herói de ação aclamado pela plateia. Palmas para Cruise – que, aliás, é muito bom ator, como demonstrou em três indicações ao Oscar (destaque para o filme que é xodó deste blog, Magnólia).

Quando investe no mundo das viagens no tempo, No Limite do Amanhã ignora todos os paradoxos inerentes ao tema e mantém o público focado na ação, sem se arriscar. Isso, por um lado, entretém os expectadores mais casuais e, ao mesmo, tempo deixa espaço para reflexões futuras. Assim, o filme não obriga ninguém a engolir seus conceitos de ficção-científica e ainda permite aos fãs do gênero encontrar muito boas ideias ali. Nada, porém, que Feitiço do Tempo já não tenha feito – mesmo que com uma abordagem menos cool.

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O universo de No Limite do Amanhã tem graça não só por justificar esse tipo de filosofia, mas principalmente por seu design de produção. O visual das criaturas extraterrestres é bastante original, fugindo do clichê dos aliens humanóides que vemos sempre no cinema. Os mimics se movem e atacam de um jeito novo e criativo. Apesar do sistema de “consciência unificada” não ser novidade para quem aprecia o gênero, é um recurso muito bem trabalhado e funcional no roteiro. Ponto positivo também para o desenho dos exoesqueletos, naves e armas futuristas do longa. O visual não é estiloso, respeitando a ideia de “protótipos de guerra” que o filme sugere, e dando ao público a chance de se sentir mais próximo daquele cenário, que esteticamente lembra muito o nosso presente.

No fim das contas, o longa diverte. Nada mais. Ensaia uma reflexão de ficção-científica aqui, traz novidades estéticas ali, mas não passa disso. O terceiro ato do filme é o mais burocrático possível, como um típico blockbuster norte-americano de meio-de-ano. Mas, como um videogame, ele mantém o público interessado em chegar ao final. “Afinal, o que há depois daquela fase? Como será o chefão?” A trama desenvolve um pequeno romance entre Cruise e Emily Blunt apenas para manter o apelo (com o público feminino, talvez?), mas sem perder o foco no entretenimento. As repetições de cenas funcionam bem, não soam cansativas e ainda servem como alívio cômico em alguns momentos. Sem grandes aspirações, No Limite do Amanhã não decepciona, e ainda mostra como se adapta um videogame ao cinema.

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Review #21: A Culpa é das Estrelas

“A Culpa é das Estrelas”, romance lançado em 2012 pelo escritor americano John Green, virou um best-seller internacional no gênero infanto-juvenil rapidamente. Ou deveria dizer “subgênero adolescente”? Fato é que a história de amor entre dois jovens, com uma capa azul e fontes bonitinhas, arrancou lágrimas de jovens por todo o mundo. Era apenas uma questão de tempo – no caso, dois anos – para que os produtores de Hollywood se dessem conta do potencial comercial da obra. Fui ao cinema sem jamais ter lido o material original, com o simples interesse em ser surpreendido pela tela grande. No fim das contas, A Culpa é das Estrelas não é mesmo “só mais um” romance adolescente.

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O filme é dirigido pelo novato Josh Boone, que tem no currículo apenas Ligados Pelo Amor, de 2012. Na trama, Shailene Woodley vive Hazel Grace, uma garota de 16 anos diagnosticada com câncer nos pulmões ainda na infância. Frequentando sessões de grupos de apoio (a contra-gosto), Hazel conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), um jovem de 18 anos que perdeu a perna direita também por conta de um câncer. A doença, entretanto, fica em segundo-plano durante as pouco mais de duas horas de projeção. O foco da narrativa é mostrar como esses dois jovens se apaixonam e se descobrem, crescem e aprendem um com o outro, enfrentando os obstáculos do amor e da vida.

A Culpa é das Estrelas prova que ainda é possível contar histórias românticas no cinema sem apelar para os mesmos recursos narrativos de sempre. O filme valoriza os sentimentos, a repercussão das ações dos personagens, em vez de se preocupar em mostrar a ação acontecendo de fato. O longa evita verbalizar até mesmo as relações dos personagens. É namoro ou amizade? É amor ou carinho? Essas são perguntas respondidas pela audiência, e não pelo roteiro. A Culpa é das Estrelas toma um caminho totalmente diferente e original para contar a já conhecida história da “garota que conhece um garoto”. Qualidade vista em um outro filme da mesma dupla de roteiristas, Scott Neustadter e Michael H. Weber: (500) Dias com Ela, de 2009.

Boone, aliás, parece ter sido fortemente influenciado pelo filme de Marc Webb em sua maneira de dirigir e controlar o tom em A Culpa é das Estrelas. Os diálogos transcorrem de maneira bem leve e favorecem a livre interpretação dos atores. Shailene Woodley e Ansel Elgort conseguem desenvolver seus personagem com bastante naturalidade e expressividade, mostrando uma química bem forte em cena. Além disso, é difícil não lembrar imediatamente de (500) Dias com Ela na maneira como a cor azul é destacada durante todo o filme, variando no tom em momentos mais tristes e mais felizes.

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Porém, o filme ainda cai em alguns clichês que poderiam ter sido evitados.  O texto é carregado de diálogos extremamente elaborados, que tornam algumas sequências pouco verossímeis. O protagonista, por exemplo, é prejudicado em diversos momentos ao ter sua inteligência, sagacidade e humor valorizados de forma exagerada. Não é apenas uma vez que Augustus Waters chama a atenção para si com monólogos demasiadamente complexos, numa postura quase caricata de um jovem poeta. Essa abordagem deixa o personagem deslocado dentro do contexto do filme, fazendo-o soar como um “príncipe encantado”, em contraste com a proposta realista da trama. Porém, na cena em que o vemos passar mal num posto de gasolina e quase morrer, Gus se torna imediatamente mais humano. É o momento em que o filme parece reconhecer o próprio erro, corrigir-se e seguir em frente sem mais problemas.

Outro problema no roteiro é a figura de Peter Van Houten (Willem Defoe, como sempre muito bem). O autor fictício que é ídolo dos protagonistas exerce a função ingrata de muleta narrativa durante a maior parte do filme, mais precisamente entre o segundo e o terceiro ato. Sua participação, apesar de desencadear momentos cruciais na trama e no próprio desenvolvimento dos personagens, poderia ter sido facilmente descartada no corte final. A presença de Van Houten na vida de Hazel e Gus faz muito mais sentido e tem um impacto muito mais palpável enquanto ele age apenas como um correspondente eletrônico, fazendo as vezes de recurso narrativo. Quando se materializa, o personagem fica fora de contexto e é obrigado a ser acomodado na trama, causando um desconforto geral principalmente em sua última aparição, no fim do longa.

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Apesar desses problemas, as personalidades concebidos por John Green são bastante originais e bem trabalhadas. Hazel, seus pais, Gus, Isaac (Nat Wolff) e até mesmo Van Houten oscilam entre o bem e o mal, demonstram forças e fraquezas, qualidades e defeitos, de maneira honesta e verossímil. Isso faz de A Culpa é das Estrelas um filme inovador em aspectos em que outros do mesmo gênero falham miseravelmente em apenas repetir as mesmas fórmulas. Trata-se de um filme sobre a vida como um todo, como uma grande jornada. Não é sobre uma fase específica, uma certa idade mais facilmente identificável por um determinado público-alvo, como na maioria dos romances infanto-juvenis/adolescentes.

Enfrentar a morte diante de si e a dor de perder alguém que ama são desafios para qualquer um, em qualquer idade. O filme emociona pela maneira sincera com que lida com o diagnóstico de câncer e com o medo que tal notícia desperta em quem a recebe. A franqueza com a qual os personagens reagem à doença torna a situação dramática e tocante o bastante, mas sem soar apelativa. Provoca uma reflexão na audiência ao mesmo tempo em que a leva às lágrimas. O choro do público ao deixar o cinema não é causado por pensamentos deprimentes, como faria normalmente uma obra sobre câncer: é pela profundidade com que a história de Hazel Grace toca em cada um que a assiste. A Culpa é das Estrelas é mais do uma história de amor entre dois jovens. É uma história de amor por si só.

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Review #20: Sob a Pele

A estética no cinema exerce um papel importantíssimo na construção do ambiente, da narrativa e da atmosfera de um filme. A maior parte dos sentimentos que uma obra desperta no espectador está relacionada àquilo que ele vê na tela. No cinema, o visual também faz parte do conteúdo. Um roteiro brilhante sem uma estética que o acompanhe não é capaz, sozinho, de fazer um filme funcionar. Mas até que ponto nossos próprios conceitos – ou preconceitos – sobre “o que é cinema”, “o que é estética”, “o que é roteiro” podem atrapalhar nosso julgamento? A partir de que momento estamos verdadeiramente abertos para uma nova ideia, uma novidade genuína, em um desses aspectos ou em todos eles de uma vez? Essa é a proposta de Sob a Pele: desafiar o que a gente acha que sabe sobre cinema.

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Primeiro de tudo: Sob a Pele não é para qualquer um. Não digo que se trata de um filme acima da média, ou mesmo destinado a um público supostamente “superior”, ou mesmo “diferenciado”. O novo filme de Jonathan Glazer provoca nas mais diferentes audiências exatamente aquilo que ele se propõe a provocar, e isso é ótimo. A questão é: há quem goste da proposta e há quem odeie. Mas não há quem fique simplesmente indiferente ao resultado final. E isso, para uma obra de arte, é primordial.

Sob a Pele incomoda o espectador desde os segundos iniciais até os últimos frames antes do fim da projeção. Nada nesse filme se prende ao convencional, principalmente o roteiro. Não fica claro em momento algum qual é a trama do longa. O objetivo é simplesmente ilustrar, através de um mar de alegorias e metáforas visuais, o vício do ser humano em valorizar as aparências. Scarlett Johansson interpreta uma entidade não-humana – um robô? um alien? um anjo? um demônio? – que passa o filme inteiro exercendo a função de imitar o comportamento social terráqueo para capturar espécimes masculinos solitários, usando de seu charme e beleza “pré-programados”. Ela claramente obedece à uma ordem, vinda de algum tipo de “empregador” que a examina e observa seus passos à distância. Um ser que tenta, da mesma maneira, se disfarçar entre os humanos como se fosse mais um deles.

Numa sequência de abertura que evoca quase que imediatamente 2001: Uma Odisseia no Espaço (sem falar nas inúmeras outras referências a obra de Stanley Kubrick, na forma e no conteúdo do filme), Sob a Pele já começa estragando expectativas. Apenas com pouco mais de 20 minutos de filme é que as coisas começam a se encaixar e ensaiar algum sentido. Tudo muito subjetivo, entretanto, deixando bastante espaço para a interpretação. A ambientação não é explícita (a maioria dos atores fala com um sotaque escocês bem carregado, mas há uma sonoridade britânica em diversas vozes também), e o elenco é quase que todo formado por “desconhecidos” de Hollywood. Não há personagens, na verdade, apenas vítimas de Scarlett Johansson. Nesse sentido, Sob a Pele cumpre perfeitamente o papel de integrar o espectador à perspectiva da protagonista: um lugar estranho, com pessoas estranhas, onde tudo parece deslocado e onde há um trabalho a ser feito.

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É nesse momento que o filme se depara com seu pior defeito: a repetição. Com a quase inexistência de diálogos (a maior parte das falas é improvisada), Sob a Pele se esforça para deixar claro para a audiência seu objetivo em provocar uma determinada reflexão. Buscando deixar espaço para a interpretação e não soar tão óbvio, o filme acaba repetindo sequências de maneira extremamente lenta e cansativa. Certas analogias e/ou metáforas chegam a ser mostradas três ou quatro vezes num intervalo muito curto de tempo. A sensação que fica é “okay, eu já entendi o que está acontecendo, não precisa mostrar de novo”. Isso torna a narrativa, que poderia ter sido muito mais envolvente e instigante, um obstáculo para o desenvolvimento do enorme potencial do filme.

Mas o longa segue em frente, apesar das pedras no caminho. Se no começo do filme a protagonista age apenas como uma máquina, reconhecendo padrões de comportamento e adaptando-se às variáveis para executar sua função, aos poucos sua consciência vai ganhando forma e ela adquire curiosidade. Sob sua perspectiva, temos o privilégio de testemunhar o melhor e o pior do ser humano. Um dos momentos mais sublimes de Sob a Pele é quando a personagem de Scarlett se vê num espelho e se dá conta de que ela tem as feições de um ser humano. Visualmente, ela é igual às suas vítimas. (Há quem interprete essa cena como o momento em que ela percebe o que a faz atraente aos homens. Argumento igualmente válido. As diferentes visões sobre esse momento não afetam o desenrolar da trama)

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A partir daí, a personagem passa a tentar descobrir o que mais ela pode ter em comum com a espécie humana. Prazeres simples como o sabor de uma fatia de um bolo até o ápice do êxtase provocado por uma relação sexual entram na pauta. Só suas limitações biológicas a impedem de concluir sua “pesquisa”. Mas há muito mais sob a superfície. Ao aventurar-se pelo “mundo”, a personagem nos presenteia com planos extremamente abertos filmados por Glazer, que elucidam a imensidão de oportunidades naquela paisagem. Há quem queira ajudá-la em seu caminho, pessoas que a oferecem carinho e apoio como apenas seres humanos são capazes de fazer. Outros representam a mais pura maldade, a encarnação da corrupção, e que, no fim das contas, terminam por agredi-la até a morte. Da mesma forma, como apenas seres humanos são capazes de fazer.

Sob a Pele demonstra como somos facilmente enganados pelos nossos preconceitos e nossa mania de valorizar as aparências. A beleza de Scarlett Johansson esconde uma criatura de outro mundo. E mesmo a “esquisitice” dessa criatura esconde uma alma atormentada e pura. A maior parte do público decidiu ir ao filme apenas para ver a atriz nua, como a imprensa sensacionalista fez questão de divulgar. Trata-se do mesmo público que se decepcionou com a obra, por ser obrigado a encarar de frente o reflexo de seu próprio preconceito com o diferente. No fim das contas, nada é realmente o que parece ser. E o verdadeiro valor das coisas só se manifesta quando lhe é dado a chance.

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Review #19: Os Suspeitos

Obra de 2013 que foi praticamente esnobada na premiação da Academia deste ano. No elenco, Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Terrence Howard e Paul Dano. Na direção, o canadense Denis Villeneuve (Incêndios). Na trama, duas crianças desaparecem numa vizinhança, que embarca num mistério liderado pelo detetive local. Pode até ser que, com essa premissa, não estejamos falando de alguma “revolução cinematográfica”. Na verdade, estamos falando de um longa que, primordialmente, atende ao nosso desejo mais básico enquanto espectadores: o de assistir a uma boa história. Sem desafiar paradigmas, sem surpresas técnicas e tampouco reflexões profundamente filosóficas. Um exemplo de como a simplicidade pode criar um dos melhores filmes de sua época: Os Suspeitos.

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Para se contar uma boa história no cinema, é imprescindível que os realizadores da obra não subestimem a inteligência da audiência. Nada contra tramas complexas (pelo contrário!), mas filmes que exigem demais do público também podem pecar pelo excesso – nesse caso, privando uma parte da audiência de ter a oportunidade de apreciá-lo. Os Suspeitos é o perfeito exemplo de equilíbrio na arte de se contar histórias em película. Trata-se de um filme digerível por todos os públicos, raramente apelando para fórmulas repetitivas ou para uma narrativa preguiçosa de filme “sessão da tarde”.

O roteiro usa, sim, de um ou outro clichê para fazer a trama se mover de forma “natural” aos olhos menos treinados. Mas, em nenhum momento, esses recursos são utilizados como estratégias-chave. Villeneuve consegue criar uma atmosfera angustiante, no melhor estilo David Fincher, sem soar como um deja vu ou como mais do mesmo. O diretor usa rimas visuais, simbologias e cortes de cena precisos, que ajudam a contar a história num espectro não-verbal, economizam tempo e dão margem para a interpretação dos espectadores, sem apelar para fórmulas batidas de desenvolvimento dramático que só fariam o filme parecer “mais um” entre tantos. Dessa maneira, o longa consegue conquistar seu espaço na memória do público com sua própria assinatura.

Os Suspeitos consegue ser uma aula de cinema em três aspectos importantíssimos para qualquer produção: arte (incluindo design de produção), fotografia e personagens (roteiro, direção e elenco). O primeiro item fica evidenciado na palheta de cores utilizada pelo trio Villeneuve, Paul Kelly (direção de arte) e Patrice Vermette (design de produção). O tom do filme está em perfeita harmonia com a evolução da narrativa, numa paisagem fria, porém aconchegante no início, quando as famílias ainda estão reunidas em felicidade; planos e locações mais abertas, mostrando mais fenômenos naturais como chuva e neve, evidenciando o distanciamento dos personagens após a tragédia que os abala; e, por fim, o clímax e a conclusão filmadas durante a noite, com figurinos escuros e tons bem mais sombrios, refletindo o ponto mais depressivo ao qual os protagonistas chegaram.

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A fotografia do experiente Roger Deakins, como sempre, é um espetáculo à parte. O cineasta (pois, para mim, ele merece esse título) já foi indicado 11 vezes ao Oscar, apesar de nunca ter recebido justiça da Academia. Assim como em outras grandes obras do cinema moderno, como Onde os Fracos Não Têm Vez e Bravura Indômita (ambos dos irmãos Coen), Deakins mostra em Os Suspeitos o verdadeiro valor da perspectiva. Os ângulos utilizados em momentos de confronto entre personagens, colocando todos sempre num mesmo nível que representa a pluralidade dos pontos de vista apresentados pelo roteiro, são destaque. Isso sem falar nas cenas mais intensas, como na tentativa de fuga de Alex (Paul Dano), em que temos aquela perspectiva claustrofóbica do banheiro minúsculo onde o jovem é preso; na troca de disparos entre o detetive Loki (Gyllenhaal) e Holly Jones (Melissa Leo) perto do fim do filme, que, com rápidos movimentos de câmera, mostram a urgência da cena sem desorientar o espectador; e, por fim, na corrida contra o tempo do policial protagonista para levar a jovem Anna Dover (Erin Gerasimovich, uma graça!) para o hospital, colocando-nos sob o ponto de vista desorientado do condutor do veículo, baleado, através de planos de detalhe muito bem escolhidos.

Como em toda história bem contada, os personagens de Os Suspeitos são tão verossímeis e bem desenvolvidos que, em diversas cenas, é impossível controlar o impulso de “conversar” com a tela – “não faça isso!”, “não vá por aí!”, etc. Os diálogos são ricos em conteúdo, e o tempo de tela que cada um tem é muito bem equilibrado, de modo que, por mais que o filme se concentre numa dupla de protagonistas, os coadjuvantes não atuam como meros reflexos das atitudes dos personagens principais. Todos eles possuem personalidades e perfis muito bem definidos, e o modo como cada um reage ao conflito representa perspectivas bem palpáveis e identificáveis.

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O confronto principal entre Keller (Hugh Jackman, um ator que não deve demorar para ser reconhecido pela Academia) e Loki (Gyllenhaal, que parece amadurecer cada vez mais a cada filme) é o motor da narrativa de Os Suspeitos. O pai de uma das meninas raptadas representa o desespero incontrolável pela perda da filha. Keller é o personagem que nos faz questionar os limites morais da justiça, o que é certo e errado, que nos estimula a tentar dimensionar nossos próprios limites emocionais – até onde você iria por alguém que você ama? Loki, entretanto, é o outro peso da balança. É a representação do equilíbrio profissional, do policial que reconhece e identifica os padrões de comportamento das vítimas, um sujeito altamente preciso em suas atitudes e em sua postura, mas sem perder o toque humano e sensível que o permite conquistar a simpatia do público. Cada personagem defende uma postura diferente com relação ao sequestro das meninas, ambos de maneira convincente o bastante para não se tornarem antagonistas aos olhos da audiência.

O filme desenvolve o mistério quase que em segundo plano. A ambiguidade na personalidade de Alex (Paul Dano, brilhante), as pistas desconexas que formam o quebra-cabeça completo pouco antes do fim da projeção, e até mesmo os diálogos, ricos em argumentos bem fundamentados, são apenas a superfície do longa. O coração do filme está nos personagens. A forma como essas pessoas, prisioneiras (como diz o título original) de suas próprias crenças, esperanças e medos se relacionam e se contorcem diante de uma tragédia sem sentido é o que realmente move a trama. Em tempos em que Hollywood investe cada vez mais em remakes, sequências e adaptações – um claro sinal da falta de criatividade (ou de interesse pela criatividade) do mercado norte-americano globalizado – assistir a um filme original em sua essência, que respeita os fundamentos da arte cinematográfica e aproveita os valores da narrativa audiovisual para contar uma boa história, com simplicidade e conteúdo, é um prazer raro. Em resumo, Os Suspeitos é a mais pura definição da “magia do cinema”.

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Review #18: O Espetacular Homem-Aranha 2

Quando se fala em adaptações no cinema – filmes baseados em quadrinhos, livros e games, remakes, etc – dois aspectos referentes à história merecem bastante atenção: o nível de independência e o nível de fidelidade ao material original. Soa contraditório, mas eu explico. Uma boa adaptação deve existir e funcionar dentro de seus próprios limites, como qualquer filme. O longa não pode exigir que o espectador conheça o material original, de modo que o filme deve funcionar por suas próprias pernas. Mas, ao mesmo tempo, esse filme não pode desrespeitar aqueles que conhecem a obra original. A essência do livro/gibi/filme/game que ele adapta deve ser mantida, acima de qualquer coisa, funcionando como uma extensão da obra original para o cinema. Filmes como Clube da Luta, O Lobo de Wall Street, Sin City, O Cavaleiro das Trevas e Star Trek (2009) são excelentes exemplos de filmes que funcionam para qualquer audiência: os que conhecem e o que não conhecem o material original. Dito isso, vamos ao review de uma adaptação dos quadrinhos que não decepciona em um desses aspectos, mas falha miseravelmente no outro: O Espetacular Homem-Aranha 2.

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Antes de mais nada, vamos relembrar a primeira etapa dessa nova franquia comandada por Marc Webb (eu deveria dizer apenas dirigida, pois quem de fato comanda esse circo é o produtor executivo Avi Arad). Lembro-me de que a proposta de fazer um reboot para a série do super-herói nos cinemas tão pouco tempo depois do fim da trilogia de Sam Raimi me pareceu tão absurda na época quanto me parece hoje. Não houve tempo o suficiente para o público apagar da memória o rosto de Tobey Maguire sob aquela máscara. Desse modo, com duas versões do herói coexistindo numa mesma época, comparações são inevitáveis. Não estamos falando de uma modernização da história apresentada por Raimi, pois não se pode “modernizar” um filme que é apenas dez anos mais velho. O senso comum diz que não se criou uma nova geração entre o fim de Homem-Aranha 3 e o início dessa nova franquia (cinco anos). – Mas, como veremos mais adiante, o senso comum pode (infelizmente) estar errado.

O Batman, por exemplo,  ficou oito anos na fila até ser totalmente remodelado e reapresentado nos cinemas pelas mãos de Christopher Nolan. O Superman, se considerarmos o filme de 2006 de Bryan Singer, esperou sete anos até ter sua origem recontada e modernizada por Zack Snyder. É tempo suficiente para reconquistar o público. Mais importante do que isso, aliás, é a principal motivação dessas reformulações: a possibilidade de contar a mesma história sob uma ótica diferente. O Homem de Aço passa longe de soar como um remake de Superman, de 1978, assim como Batman Begins não lembra nem um pouco o filme de Tim Burton de 1989. Ainda assim, é a mesma história, da mesma origem, do mesmo personagem, só que com uma roupagem diferente. Isso é o que devia ter motivado a produção dessa nova franquia do Homem-Aranha. Mas, aparentemente, não foi o caso.

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O Espetacular Homem-Aranha, de 2012, é um filme tão ruim, em tantos aspectos diferentes, que não vale mais do que este curto parágrafo. O longa é um desastre como reboot (pois se parece tanto com o primeiro filme dirigido por Raimi que chega a soar como um remake), como adaptação (Peter Parker anda de skate e enfrenta os valentões? Alguém não quis ler as HQs antes de escrever esse roteiro) e como obra independente (o filme trafega por entre gêneros sem a menor coordenação, parecendo mais uma mistura de Os Vingadores com O Cavaleiro das Trevas e Crepúsculo). A expectativa, com base em todo o material de divulgação da Sony, era que essa sequência, no mínimo, corrigisse os erros mais grotescos do primeiro. O que, de certo modo, foi feito.

O Espetacular Homem-Aranha 2 define seu público-alvo com a agilidade que faltou ao seu antecessor: trata-se de uma aventura romântica para pré-adolescentes. Com isso em mente, o filme até que funciona. As sequências de ação são muito bem dirigidas, agitadas, porém nítidas, sem falar na computação gráfica impecável; a trilha sonora está em perfeita harmonia com o tom do filme (o que faltou no primeiro), divertida e frenética, obra do genial Hans Zimmer; as cenas de romance fluem naturalmente, com diálogos bem escritos por Alex Kurtzman e Roberto Orci, brilhantemente interpretados por Andrew Garfield (o protagonista) e Emma Stone (Gwen Stacy), e conduzida com maestria por Marc Webb (talento que ele já havia provado em 500 Dias com Ela). Tudo isso sem falar no humor, que acompanha a aventura durante suas mais de duas horas de projeção, sem perder o fôlego e sem parecer mal encaixado entre a ação. Os três vilões, ponto de maior desequilíbrio no fatídico Homem-Aranha 3, coexistem muito bem aqui. Cada um tem seu espaço para se desenvolver como personagem, de modo que suas motivações ficam bem claras e definidas, sem desviar o foco da audiência no protagonista.

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“Uma aventura romântica para pré-adolescentes” pode parecer o mesmo subgênero de filmes como Crepúsculo, Divergente e Jogos Vorazes, para citar alguns exemplos de filmes massificantes produzidos por Hollywood e enlatados para o mundo inteiro. O que não deixa de ser aplicável aqui. Não se assuste se entrar numa sessão de O Espetacular Homem-Aranha 2 e encontrar algumas dezenas de jovens com, no máximo, 15 anos de idade, vibrando pelo super-herói e se emocionando com o trágico (porém facilmente descartável) destino de Gwen Stacy. Isso traz à tona a questão discutida na abertura deste review, sobre o nível de fidelidade que uma adaptação deve ter ao material original.

Se o primeiro filme já é um total desrespeito ao cânone do personagem (os pais de Peter ganham um destaque que nunca tiveram nos quadrinhos, o uniforme do herói é extremamente mal desenhado e a motivação para o adolescente vestir um colante azul e vermelho passa longe das ideias originais de Stan Lee e Steve Ditko), essa sequência não deixa por menos (Harry Osborn se torna o primeiro Duende Verde para se curar de uma doença genética? O Homem-Aranha tem um poder de cura?). Mas, apesar de tudo isso, o público infanto-juvenil parece vibrar com essa nova aventura. Em detrimento da fidelidade, o filme investe no que o torna original para uma audiência que desconhece o material original. Considerando os dois aspectos que constroem uma boa adaptação, O Espetacular Homem-Aranha 2 tem sucesso em um, mas simplesmente ignora o outro.

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Historicamente, o Homem-Aranha sempre representou nos quadrinhos aquele adolescente desajustado, tímido, porém muito bem-humorado, que se preocupa com o próximo mais do que consigo mesmo, sem jamais se esquecer de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Esse novo personagem não é nada disso. O que vemos na tela é um jovem atraente aos olhares femininos, no perfeito arquétipo de “príncipe rebelde” (a.k.a. “hipster”), sem a menor preocupação na vida, num filme que presa muito mais pelo entretenimento barato do que pelo drama. Segundo seus principais defensores, essa nova franquia é uma atualização do personagem para o século 21, buscando a identificação dos adolescentes de hoje, assim como as histórias de Lee e Ditko buscaram nos jovens da década de 1960. Aparentemente, o Peter Parker clássico representa um jovem que não existe mais. A versão de Tobey Maguire está ultrapassada.

Em cinco anos, as gerações que pegaram apenas o final da trilogia de Sam Raimi, ou que sequer têm na memória imagens vívidas daqueles filmes, descobriram o lado fútil da internet, perdendo, no processo, o significado. O que esse novo Peter Parker representa é uma juventude sem conteúdo, a massante comunidade “pseudo” que se espalha pelos Twitters e Facebooks da vida. Enquanto que, em sua concepção original, Peter Parker representava os fracos e oprimidos, a minoria de valor que sofria pela popularidade da massa ignorante. O que o sucesso comercial de O Espetacular Homem-Aranha 2 (e suas já anunciadas sequências) comprova é que um personagem identificável pela maioria vende mais do que o clássico herói, salvador dos verdadeiros nerds isolados e solitários. Essa nova franquia tem como objetivo deturpar a essência do personagem, tudo em nome do “espetáculo” estampado no título dos filmes. Mas, aparentemente, o significado de ser nerd para a geração YouTube/”The Big Bang Theory” não é o mesmo que para as gerações mais antigas (em uma das quais, eu me incluo). É o progresso tecnológico valorizando a estupidez, e a idade chegando para todos nós.

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