Review #31: A Onda

O contexto histórico em que um filme está inserido diz muito sobre sua mensagem. É impossível pensar em filmes como Nascido para Matar sem considerar os tempos de Guerra do Vietnam. Assim como Um Dia de Cão perde todo seu charme se não levarmos em conta o movimento de contracultura nos Estados Unidos da década de 1970. Alguns temas, porém, nunca deixam o plano de fundo histórico, enquanto outros surgem como fenômenos sociais despertando a atenção de comunicadores e pensadores contemporâneos. É nesse intermeio que nasce o “novo clássico” alemão A Onda.

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Dirigido por Dennis Gansel, o filme de 2008 se baseia em fatos reais registrados na Califórnia da década de 1960. Rainer Wenger (Jürgen Vogel) é um professor “moderno”, “descolado”, querido pelos alunos do ensino médio de uma escola “normal” da Alemanha. Escalado para dar aulas sobre autocracia, o mestre resolve adotar um método interativo para lecionar, trazendo a realidade de regimes ditatórias como o nazismo para a realidade dos estudantes. Assim, “Herr Wenger” se torna o líder de um grupo de identidade própria chamado “A Onda”, que lentamente sai do controle e rompe as barreiras da sala de aula.

O filme faz questão de dialogar com as novas gerações, estrelando personagens jovens e com cara de novela vespertina. Jennifer Ulrich e Max Riemelt interpretam o casal principal, com toques de romance e dilemas adolescentes, além de coadjuvantes estereotipados que parecem tirados diretamente de um melodrama mexicano, ou uma versão televisiva de Clube dos Cinco. Com personagens relativamente rasos, é fácil gerar engajamento do público mais novo. Dessa forma, Gansel joga a isca, atraindo a audiência para a verdadeira mensagem do filme. Quase um MacGuffin de Hitchcock.

Herr Wenger decide incrementar suas aulas com um toque de maior “realismo” quando ouve de um de seus alunos: “é impossível um novo regime nazista na Alemanha. Já superamos isso”. De fato, quem não viveu em tempos de guerra ou ditadura não tem uma noção maior dos fatos do que as secas palavras dos livros de história. O protagonista entende que é preciso demonstrar aos seus estudantes como a massa é facilmente manipulável, e que mesmo dentro dos limites do colégio, ideologias políticas sempre vão ditar interações sociais.

Na “Onda”, os participantes se sentem parte de um grupo, uma união de forças, uma grande unidade. Uma vareta sozinha é frágil, discriminada e facilmente relegada à miséria. Um conjunto de varetas, de feixes (fascio, em italiano) formam uma força pesada e difícil de derrubar. Temos aqui a origem do fascismo. Como um dos personagens deixa claro, basta unir insatisfação popular com discursos de grandeza e “união faz a força”. Em questão de segundos o grupo está marchando rumo a uma suposta “guerra” contra modelos ultrapassados de governo (onde entra a figura do professor mais velho de História, preterido pelos estudantes do filme) e contra os liberais anarquistas. Nasce um movimento socialista e nacionalista.

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O movimento cria a própria identidade, a “Onda” tem seu próprio código estético (camisa branca e calça jeans, baratas e de fácil acesso para todos), insígnia (um símbolo que os represente como parte de uma unidade) e gestos. Agora temos um protótipo de nazismo. É fácil entender como os jovens embarcam nessa ideologia “de quintal” com tanta facilidade e disposição. É inerente a essa faixa etária o desejo pela mudança, pela quebra de paradigmas, além da necessidade de se sentir parte de um “todo”. Desse modo, em qualquer sala de aula de ensino médio encontramos os elementos básicos para a formação de um movimento político. Em qualquer reunião de pessoas que formem uma “massa”, por menor que seja, encontramos predisposição para o despertar de uma revolução.

Basta ver como as novas gerações se encantam com Jogos Vorazes, Divergente e outras aventuras infanto-juvenis baseadas em distopias autoritárias, com forte influência de obras como “1984”, de George Orwell. É apenas depois que se assiste, indefeso, os líderes dessas unidades revolucionárias chegarem ao poder que a massa percebe que algo está errado. Que não importa a orientação política, a concentração de poder em mãos erradas sempre vai acabar em regimes autoritários. Hitler chegou ao poder através de uma versão distorcida (mas bem argumentada) do socialismo. No Brasil, os militares acabaram com a democracia para afastar o “perigo” do comunismo e fortalecer alianças com o imperialismo “de direita”. Em outras palavras, são dois lados de uma mesma moeda.

O filme tem uma forte pegada Hollywoodiana, relativamente previsível, com ares de produção infanto-juvenil de grandes estúdios norte-americanos. Porém, isso fica só na superfície. Gansel produz elegantes rimas visuais e movimentos de câmera, além de um cuidado com as cores e o tom do filme para não deixar a mensagem se perder. O desfecho da história – que, aliás, é bem diferente do resultado obtido na vida real – também dialoga com questões atuais inerentes ao mundo ocidental, como o bullying e a misoginia nas escolas. No fim das contas, o experimento conduzido pelo professor Rainer tem sucesso com a audiência. É possível entender os dois lados da moeda, a sensação de fazer parte de um grupo acolhedor numa sociedade opressiva e as consequências drásticas de tomar parte de um movimento fascista. A Onda fala sobre liberdades individuais e coletivas, enquanto demonstra a importância e o valor dos direitos humanos.

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Review #30: Garota Exemplar

Historicamente, o cinema depende de certos estereótipos. Não só o cinema, aliás, mas todo tipo de meio de comunicação. É mais fácil transmitir uma mensagem a uma determinada audiência jogando com os preconceitos e com o senso comum de seu interlocutor. Isso vem desde a aurora da sétima arte, quando filmes mudos e sem cor usavam negros para definir personagens pobres ou “sub-coadjuvantes”, além de representar as mulheres como eternas “donzelas em perigo”. É uma maneira de transpor a barreira da linguagem verbal com figuras facilmente reconhecíveis. Mas não culpe somente a sociedade preconceituosa: a mídia é a principal fonte de formação desse tipo de pensamento. Preconceitos e estereótipos estão tão enraizados na sociedade civil quanto no cinema, e não somente com negros, mas com homossexuais, imigrantes, minorias étnicas e hoje, mais óbvio do que nunca, ainda com mulheres. E é sobre isso que David Fincher discute em Garota Exenplar.

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O filme tem como base o livro homônimo de Gillian Flynn. Na trama, Nick Dunne (Ben Affleck) está no centro de um controverso crime que abalou a sociedade norte-americana. Sua esposa, Amy Dunne (Rosamund Pike), desapareceu misteriosamente e todas as pistas apontam para um sequestro ou um assassinato. Nick, porém, passa a ser o principal suspeito quando suas atitudes diante das câmeras indicam que ele não está tão preocupado com sua amada. Mas esse mistério é só a ponta do iceberg. O filme desenvolve a investigação com agilidade e abre espaço para impressionantes reviravoltas, superando o estereótipo de “mulher desaparecida, marido suspeito” que pauta os trailers para embarcar em uma experiência muito mais complexa e profunda.

Afinal, o objetivo da narrativa é justamente brincar com os preconceitos do espectador. Nick se encaixa no perfeito estereótipo de marido agressivo, machista, cínico e conservador que conhecemos aos montes, no mundo e nas telas do cinema, ao passo que vemos o filme com inserções do diário mantido por sua esposa. Essa, por sua vez, foi a vida inteira vítima da exploração moral dos pais, da mídia (ela é a inspiração para uma popular personagem infantil) e, por fim, do próprio marido. Amy é claramente a vítima de um homem descontrolado que fez de sua mulher um objeto de adorno, o qual ele usa, exibe e maltrata o quanto quiser. À quem perguntar, Nick se faz de vítima e desentendido enquanto mente para as pessoas mais próximas. Sob essa perspectiva, temos um claro cenário de violência doméstica, numa sociedade marcada por crimes de ordem sexista e irracional.

Mas, por um outro ponto de vista, o que temos é uma discussão, justamente, sobre os estereótipos do sexismo. O filme intercala diferentes perspectivas na narrativa que mostram os personagens principais encarnando múltiplas funções no roteiro. O aparente vilão se torna vítima e herói em questão de minutos. A donzela em perigo se torna anti-heroína e vilã com a mesma velocidade. E, no meio disso, as relações desses personagens entre si e com o mundo forçam o espectador a mudar de lado constantemente. Não há por quem torcer quando o seu próprio fundamento do que é certo e errado está confuso. Em Garota Exemplar, não há heróis ou vilões. São seres humanos, cheios de falhas e desvios de caráter – alguns mais acentuados do que outros – que expõem o nosso preconceito e até a forma como encaramos o nosso preconceito. Em tempos de revolta feminista, quando a natureza do machismo é questionada em diferentes níveis e sob diversos pontos de vista, o estereótipo dos papéis vividos por homens e mulheres no cinema é a base para o debate no novo filme de David Fincher.

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O diretor, aliás, mantém sua assinatura ao longo de todo o filme. As cores frias e a fotografia escurecida, em cenários de poucas luzes e com um olhar bem aproximado dos fatos, marcam a narrativa do cineasta que já não precisa provar mais nada – e ele sabe muito bem disso. Ben Affleck, por sua vez, dá um show a parte. Quem viu Matthew McCounaughey crescer de cowboy em filmes B para um artista vencedor do Oscar pode se surpreender com a complexidade moral do personagem de Affleck e sua incrível habilidade em trazer esta figura à vida. O ator surpreende ao encarnar todas as facetas de Nick Dunne, das mais controversas às mais simples, com perfeição. Em cada movimento e em cada fala, vemos um Ben Affleck que, finalmente, decidiu atuar, e não apenas aparecer diante das câmeras. O mesmo vale para Rosamund Pike, que igualmente transita pelos territórios de vilã e heroína com sutileza, explorando muito bem a ambiguidade moral de sua personagem. Neil Patrick Harris e Tyler Perry completam o time com papéis coadjuvantes pontuais com bastante eficiência, mas sem grandes exigências.

O filme por vezes desliza em sua maneira de contar a passagem do tempo, indo e voltando em perspectivas diferentes que tornam difícil para o espectador mais detalhista acompanhar o andar da investigação. Nada que atrapalhe a compreensão da trama, porém. E, depois de dias matutando este review, esse foi o único “defeito” que encontrei no longa. Por mais que seja uma obra adaptada de outra mídia – e Hollywood está cada vez mais cheia desse tipo de roteiro “preguiçoso” – este possível candidato ao Oscar de 2015 faz uma coisa que poucos filmes fazem hoje em dia: dialogar com as preocupações de sua geração. Por mais que o tema “sexismo” esteja em debate na sociedade há décadas, enfrentando resistências e argumentos desencontrados de ambas as partes (que impedem a evolução da discussão, diga-se) é difícil encontrar no cinema um título que, de fato, lide com essa questão em toda a sua complexidade. Mesmo sem dar as respostas, mas, pelo menos, levantando as perguntas. Garota Exemplar faz a audiência questionar os estereótipos dos sexos e do próprio cinema, ao subverter a própria campanha de marketing dando ao público muito mais do que os trailers prometiam. Um daqueles filmes que não se vê todo dia.

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Review #29: Cisne Negro

Já discutimos aqui no blog aquela velha questão do valor da arte, certo? O quanto realmente vale um filme como Avatar, que custou US$ 240 milhões e faturou mais de US$ 700 milhões, em comparação com um A Bruxa de Blair, que não gastou mais do que US$ 60 mil para ser produzido e arrecadou US$ 29 milhões só no fim de semana de estreia nos EUA. Já é possível concluir que o sucesso comercial de um filme não está necessariamente ligado aos valores do seu investimento, assim como a importância dele para a sétima arte em nada leva em consideração o montante de dinheiro gasto ou arrecadado. Mas isso continua, sim, infelizmente ou não, a ser fator determinante para os produtores de Hollywood. Tanto por isso, Darren Aronofsky, diretor acostumado com produções de baixo orçamento e filmes independentes, conseguiu produzir seu épico Noé por um grande estúdio. O resultado eu já comentei aqui no 52 Reviews. Mas é bom darmos alguns passos para trás e entender como Aronofsky foi parar na 20th Century Fox. Em duas palavras: Cisne Negro.

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Não se preocupe, essa não é uma dissertação sobre economia ou mais um blablabla sobre a indústria do cinema. O foco é sim um review sobre esse que é considerado por muitos o melhor filme de Aronofsky. Na trama, uma bailarina chamada Nina Sayers (Natalie Portman) ganha a chance de viver a Rainha Cisne no espetáculo “O Lago dos Cisnes”. Isto é, ela tem de interpretar tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro, dois lados opostos de personalidade que duelam pelo amor de um príncipe. O problema é que o diretor da encenação, Thomas Leroy (Vincent Cassel) vê em Nina apenas o Cisne Branco, com sua delicadeza e formosura, e não encontra o Cisne Negro, sensual e agressivo. É aí que entra a figura de Lily (Mila Kunis), uma atraente bailarina da mesma companhia que parece querer “puxar o tapete” da protagonista. A partir daí, o filme apresenta esse processo de “desfiguração” por qual a personagem de Natalie vai ter de passar para encarnar os dois papéis no espetáculo.

Fica claro nessa curta e improvisada sinopse o paralelo que a história escrita por Andrés Heinz faz com o clássico conto do “Lago dos Cisnes”, do compositor russo Piotr Tchaikovsky. Nina (Cisne Branco) é a representação da doçura e inocência. Lily (Cisne Negro) representa o completo oposto: a malícia e a sensualidade. As duas dividem a atenção de Thomas (o príncipe), que precisa escolher apenas uma. Mas, na verdade, elas são apenas lados diferentes de uma mesma moeda. Lily é uma “pedra no caminho” de Nina, mas até que ponto esse obstáculo é real? “A única coisa no seu caminho é você mesma”, diz Thomas em certo ponto do filme à Nina. É nessa discussão sobre o que é real e as barreiras que nós mesmos nos impomos diante de um desafio que se faz o cerne do filme.

Aronofsky cria uma atmosfera quase sobrenatural, com elementos de suspense e terror, para contar uma história que ele mesmo já contou antes. O diretor é fascinado pelos limites que o ser humano é capaz de romper quando está realmente motivado a alguma coisa. Em Pi, seu primeiro longa, a obsessão pela matemática leva o protagonista à loucura. Em Réquiem Para um Sonho, os desejos pessoais dos protagonistas os fazem afundar no vício em drogas, até as últimas consequências. Em A Fonte da Vida, o amor pela falecida esposa leva o personagem de Hugh Jackman a uma jornada por três períodos diferentes de tempo, em busca de uma cura para a morte. Em O Lutador, a paixão pela luta livre faz com que o ex-campeão vivido por Mickey Rourke abandone a família e a chance de ter uma vida normal e saudável, para enfrentar os riscos de um ringue e a euforia de uma consagração – mesmo que isso lhe custe a vida. Em Cisne Negro não é diferente.

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A motivação de Nina, obcecada por um ideal de perfeição, a leva por uma provação física e mental. A transformação da personagem de Cisne Branco em Cisne Negro é um processo doloroso e aterrorizante, que deixa marcas nas pessoas ao seu redor e, obviamente, em si mesma. Essa transformação não se traduz apenas na direção primorosa de Aronofsky, que usa uma série de efeitos visuais práticos sob um belíssimo trabalho de fotografia de Matthew Libatique. Natalie Portman guia o espectador pela metamorfose de Nina segurando-lhe pela mão. A transformação da própria atriz é notável em cena. Pouco a pouco é possível perceber as alterações na voz, na postura, no jeito de andar e falar, em tudo. Natalie cria uma personagem tão rica em detalhes, tanto na pele do Cisne Branco quanto do Cisne Negro, seja ela tendo uma crise de pânico ou sob o efeito do álcool, que fica impossível lembrar da atriz em qualquer outro papel. Nina Sayers é o trabalho definitivo de Natalie Portman, o que lhe rendeu um Oscar merecidíssimo.

Voltando ao tema que abriu este review, vamos falar de números. Cisne Negro é uma produção semi-independente que custou US$ 13 milhões – uma pexinxa se comparado com os blockbusters que enriquecem os cofres dos estúdios no verão. É muito menos se pararmos para pensar que a maior parte dessa quantia foi usada para pagar o elenco de razoáveis estrelas. O filme chegou a faturar um total de US$ 100 milhões nos EUA pelo tempo em que esteve em cartaz. Números bem modestos, é verdade, mas as cinco indicações ao prêmio da Academia, as quatro do Globo de Ouro e mais outras incontáveis premiações renderam ao longa um status favorável nos corredores da indústria cinematográfica. Com ele no currículo, Aronofsky conseguiu a sonhada chance de produzir um épico de proporções orçamentárias absurdas, mas também teve a triste experiência de lidar com os interesses dos produtores/investidores. O que fica de lição é como uma produção semi-independente, cheia de remendos e improvisações financeiras como Cisne Negro, consegue proporcionar ao espectador uma experiência muito mais tocante e sensível do que um blockbuster megalomaníaco, como Noé. Mesmo que seja o mesmo nome a aparecer nos créditos finais.

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Review #28: Zodíaco

Quando um filme trabalha sobre um gênero relativamente comum, como um suspense sobre serial killers, por exemplo, para que ele se destaque no mar de outros títulos sobre o mesmo tema, é preciso que seja executado de forma diferente. É aquela velha história de que não importa o que será feito, o que importa é como será feito. David Fincher, diretor de um clássico recente dessa categoria, Se7en (1995), tentou de novo 12 anos depois explorar a mente de um psicopata. O resultado, porém, é um filme totalmente diferente, trazendo um novo fôlego ao gênero: Zodíaco.

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O longa é baseado no livro homônimo escritor por Robert Graysmith. Este, por sua vez, é baseado na história real do lendário “Zodiac Killer” (“Assassino do Zodíaco”). Entre o fim dos anos 60 e começo dos 70, a polícia do estado da California, nos EUA, enfrentou uma série de homicídios misteriosos, em que o anônimo autor se manifestava como culpado através de cartas criptografadas para as autoridades. A Justiça jamais conseguiu condenar algum dos mais de 2 mil suspeitos investigados, apesar de ter chegado bem perto de dois ou três nomes. Até hoje, o caso está aberto em ao menos três cidades californianas, onde os assassinatos do Zodíaco ocorreram. O principal suspeito, Arthur Leigh Allen, morreu de causas naturais antes de ser devidamente indiciado, por falta de provas conclusivas.

Graysmith, vivido aqui por Jake Gyllenhaal, trabalhava como cartunista para o jornal San Francisco Chronicle quando Zodíaco se tornou famoso. O filme então passa a seguir os passos do assassino pela perspectiva desses três homens: Graysmith, o cartunista aspirante a escritor, obcecado por quebra-cabeças e, consequentemente, por descobrir a identidade do criminoso; Paul Avery (Robert Downey Jr.), o principal jornalista do Chronicle escalado para acompanhar as investigações – o que, mais tarde, torna-o alvo público do assassino; e David Toschi (Mark Ruffalo), um dos muitos detetives encarregados do caso em São Francisco.

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Aqui entra a importância do “como” e não do “que”. A perspectiva desses três personagens é determinante para o tom do filme. Downey Jr. traz o toque exato de humor que o fez retornar aos holofotes de Hollywood. Apesar de possuir menos tempo de tela, é através de suas interações com os personagens de Gyllenhaal e Ruffalo que temos algumas das revelações mais importantes da trama. Fora isso, sua presença em cena é sempre revigorante para manter a audiência interessada no longa. Um roteiro que começa em 1968 e termina em 1995, sem grandes cenas de ação e muitas frustrações, precisa de um personagem chamativo – vivido por alguém como Downey Jr. – para não cair na monotonia.

Ruffalo, por outro lado, traz o braço da lei indispensável para a história. Seu personagem condensa as expectativas, a curiosidade, o interesse e as decepções de muitos dos incontáveis inspetores designados para a tarefa de revelar a identidade do Zodíaco. Ele, assim como outros na trama, tem seus suspeitos “favoritos”, sua própria linha de investigação e personifica todas as dificuldades pelas quais passaram as autoridades californianas no interminável processo. Vemos muito pouco de seu background, suas relações pessoais, etc., por que o foco aqui não é desenvolver o personagem. Mesmo que Fincher o faça, tanto com o detetive Toschi quanto com o repórter Avery, esses dois nomes só servem de apoio para a construção da narrativa, que tem como base o olhar de apenas um protagonista: Robert Graysmith (Gyllenhaal).

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O cartunista que se torna jornalista investigativo e detetive amador independente traz o olhar de curiosidade do espectador para dentro da trama. Ele, assim como nós, cria interesse pelo caso através da repercussão na imprensa. E, mesmo quando ele acha que “sabe tudo”, ao desvendar a criptografia do assassino com apenas algumas idas à biblioteca, é seguindo os passos que a própria polícia já tinha deixado para trás que a frustração o toma novamente. Com uma postura introvertida e extremamente sagaz, Gyllenhaal cria um personagem fácil de se identificar, que se desenvolve gradativa e naturalmente ao longo dos anos decorridos no roteiro e pelo próprio desenrolar dos fatos. É apenas depois que a investigação principal termina que seu personagem ganha força para recuperar a audiência perdida, que até então seguia e torcia pelo detetive Toschi. Uma performance confiante, sem dúvida.

É possível, porém, destacar um grande erro do filme, culpa da direção de arte. Os figurinos, cenários e cores utilizadas no longa muito pouco refletem o passar dos anos. A trama percorre quase três décadas e o único sinal disso, além das legendas que informam a data e o local de cada segmento, é o cabelo ficando grisalho em alguns personagens. A mudança é tão sutil que tudo parece acontecer num intervalo de, no máximo, cinco anos, quando foi quase seis vezes isso.

Mas nem mesmo um suposto deslize do design de produção é suficiente para tirar o crédito desse brilhante trabalho de David Fincher. Com seu toque característico, o diretor consegue criar uma atmosfera que envolve diversas sequências intensas de suspense, sobre um fundo de mistério e uns toques de humor que tornam a jornada de duas horas e 40 minutos bem mais confortável para a audiência. No fim, o espectador ganha até um vilão de presente, mesmo que as próprias autoridades não o reconheçam como tal. Uma experiência que entretém e exercita o raciocínio lógico. Um mistério cheio de pontas soltas, sobre um assassino que pode ou não ter sido real, num caso que ainda hoje tem perguntas sem resposta. Não entregar de bandeja para o público a solução para tudo, confrontar o senso comum e o que nós mesmos entendemos que faz um “herói” e um “vilão” de uma narrativa. Esse é o grande diferencial, o “como”, em Zodíaco.

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Review #27: The Matrix

Não são muitos os filmes que merecem o título de “divisor de águas” na indústria do cinema. Menos ainda são aqueles que o conseguem por contribuições artísticas à sétima arte, e não somente por “revoluções” técnicas. Quando um filme, porém, consegue quebrar paradigmas e restabelecer conceitos fundamentais de um gênero, apresentando novas tecnologias e novas ideias em conteúdo, você está diante de um clássico. Foi assim com Três Homens em Conflito, de Sergio Leone, e o gênero faroeste; ou O Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola e o gênero policial/máfia. Sem contar o que Em Busca do Cálice Sagrado e A Vida de Brian, do Monty Python, fizeram pela comédia. No cinema, é comum pensar no gênero de ficção científica em dois momentos: antes e depois de The Matrix.

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O ano era 1999 quando Andy e Larry (hoje Lana) Wachowski trouxeram ao mundo este clássico cult. Na trama, Neo (Keanu Reeves) é um hacker e programador que vive com a estranha sensação de que há algo errado com sua realidade. Após ser contatado pelos misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), ele descobre que o mundo em que vive não passa de uma simulação de computador – a Matrix. No mundo real, homens travam uma guerra secular contra máquinas com inteligência artificial, que escravizaram a maior parte da espécie humana. E é para liderar a revolução que Neo – o “Escolhido”, aquele que consegue moldar as leis da Matrix à sua vontade – é despertado de seu mundo dos sonhos.

O texto de Matrix evoca tantas influências – diretas e indiretas – que fica quase impossível listar. É possível encontrar referências a diversas obras importantes do cinema como Um Corpo Que Cai (1958, Alfred Hitchcock), O Vingador do Futuro (1990, Paul Verhoeven), Cidade das Sombras (1998, Alex Proyas), O Exterminador do Futuro (1984, James Cameron) e muitos outros. Sem falar nas referências literárias, que vão desde “A República”, de Platão, até “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol – passando por “Simulacros e Simulação”, de Jean Baudrillard. Estilo de animação japonesa, histórias em quadrinhos e mangás, filmes de kung fu orientais e muita, muita filosofia, são apenas algumas das fontes dos irmãos Wachowski na concepção desse universo. Uma obra de tamanha complexidade que renderia um review de, pelo menos, três partes para entendermos de tudo o que se trata o filme. Mas vamos nos atentar ao “simples” fato de que esse não foi um filme pensado da noite para o dia.

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O avanço tecnológico e o impacto que Matrix trouxe à indústria são parte da “lenda” criada em torno do filme. O efeito “bullet time”, os heróis que usam couro, a discussão filosófica explícita sob uma temática de ficção científica – conceitos facilmente identificáveis num oceano de filmes posteriores ao sucesso dos irmãos Wachowski. O grande mérito dos realizadores do filme – em lista à qual incluo Bill Pope, o diretor de fotografia; e Geof Darrow, o artista conceitual – está em trazer para a indústria conceitos ainda inéditos. Matrix provou que era possível entreter uma audiência e provocar reflexões ao mesmo tempo, sem que um aspecto perturbe o outro; provou que é possível atrair público às salas de cinema mesmo fora das temporadas de férias (o filme estreou nos EUA num mês de março); e demonstrou, pela primeira vez em escala mundial, o potencial da internet como veículo de marketing (15 anos atrás). Aspectos técnicos e paralelos ao conteúdo de Matrix que só enriquecem sua importância para o cinema.

Diante das câmeras, Keanu Reeves apresenta um herói frágil e assustado na maior parte da trama, mas que – seguindo os passos da jornada de Joseph Campbell – aprende a sustentar a responsabilidade de ser o salvador da humanidade. Mesmo que, lá no fundo, não convença ninguém com sua voz rouca e mal impostada. Laurence Fishburne rouba a cena, e dá aula de como se interpreta um verdadeiro líder sábio em um campo de batalha. Hugo Weaving, por sua vez, é a maior estrela do filme. O ator nigeriano (sim, ele nasceu na Nigéria, pouco antes de se mudar para a Inglaterra, onde foi criado) consegue criar um mix de vilão de quadrinhos auto-justificável com robô do mal e agente secreto. O trabalho na composição de seu sotaque e sua postura em cena são primorosos nos mínimos detalhes.

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Mais um ponto positivo para a direção surpreendentemente jovem e coesa para uma dupla inexperiente como Andy e Larry Wachowski. Os dois só tinham um longa-metragem de estúdio no currículo antes de transformar seus sonhos nerds de adolescente em realidade. E a dupla claramente sabia o que estava fazendo. O filme segue um tom e uma linha estética muito bem definida do início ao fim. Nada parece fora do lugar, de modo que a fotografia e a arte se complementam ao conteúdo, com muita originalidade – tudo parece ter vindo de uma mesma cabeça, que sabia exatamente o que queria fazer e como.

Existe um motivo para um filme ser considerado clássico e não é capricho de crítico de cinema. Para um filme conseguir destaque na indústria e influenciar tantos outros que vieram depois de maneira tão drástica, não basta apenas uma boa equipe de produtores executivos. Os irmãos Wachowski desafiaram paradigmas, elevaram parâmetros de qualidade e marcaram toda uma geração criada diante da tela de um computador. O cinema nunca mais foi o mesmo depois de Matrix. E isso o classifica como clássico.

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Review #26: Filhos da Esperança

Uma coisa que se aprende nas chamadas “categorias de base” do teatro – em especial nas escolas que utilizam o método Stanislavski – é que não importa o que você vai fazer em cena: o que importa é COMO você vai fazer. O mesmo vale para qualquer expressão artística. Inclusive cinema. Um filme pode ter conceitos inéditos, mas se a execução for falha, de nada adianta. Da mesma maneira que uma história simples, cheia de arquétipos, ao melhor estilo conto de fadas, pode surpreender pela maneira como foi filmada ou produzida. Quando um filme parte de uma premissa relativamente simples e cria uma obra marcante por aspectos técnicos e artísticos, você tem um filme memorável. Você tem um Filhos da Esperança.

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Na trama, o mundo vive à beira de um colapso econômico e social, assolado por guerras, doenças, anti-semitismo e tudo o mais que vem destruindo o planeta nos últimos milhares de anos. Pra piorar, por algum motivo, todas as mulheres do mundo se tornaram inférteis. Nesse cenário totalmente sem esperanças e perspectivas para o futuro, encontra-se Theo (Clive Owen), um ex-ativista que recebe da ex-mulher, Julian (Julianne Moore), a missão de escoltar uma imigrante pela fronteira da Inglaterra. A menina, Kee (Clare-Hope Ashitey), espera um bebê, o primeiro em mais de 20 anos no mundo todo. Como essa gravidez se encaixa em discussões políticas e éticas ao longo do filme é o grande mérito da trama concebida por P.D. James, o autor do livro em que se baseia o filme.

Muito antes de surpreender a indústria, a crítica e o público com o multi-Oscarizado Gravidade, de 2013, o diretor mexicano Alfonso Cuarón já dava sinais de que não era um simples cineasta latino-americano tentando ganhar algum trocado em Hollywood. Mesmo com um Harry Potter no currículo (o melhor da série, diga-se), Cuarón é um cineasta de assinatura bem expressiva. O já citado Gravidade sufoca a audiência levando-a para a estratosfera, com planos-sequência milimetricamente executados e o ritmo de uma sinfonia de Beethoven. Filhos da Esperança segue a mesma linha.

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Também com um mote de ficção científica, Cuarón traz para a terra firme questões como o papel do homem diante da natureza (inclusive a própria natureza), discussões sobre o amor e sobre a humanidade, tudo  sob uma roupagem documental. Muita câmera na mão, cores frias, planos-sequência intensos – contribuição da fotografia exuberante de Emmanuel Lubezki (A Árvore da Vida) -, além de um produção artística primorosa. Aquele mundo sujo e caótico parece real em suas formas e em seu conteúdo, mas levemente distante, como se ambientado em um futuro aterrorizantemente próximo.

Mas nem tudo é perfeito. Se em Gravidade, Sandra Bullock consegue carregar a audiência sobre os ombros durante a narrativa, tornando-nos dependente de sua visão e, consequentemente, defensores incontestáveis de nossa heroína, o mesmo não se pode dizer de Filhos da Esperança. Clive Owen, que até atua bem, não consegue dar ao seu protagonista o caráter heroico que o roteiro pede. É difícil entender, ou mesmo acreditar, em sua motivação durante a trama. Julianne Moore, mesmo com uma participação bem curta, confere muito mais poder e imponência à sua personagem do que o suposto herói. Palmas, ainda, para Chiwetel Ejiofor (muito antes de 12 Anos de Escravidão) e o sempre brilhante Michael Caine.

Felizmente, a aparente inexperiência de Owen em papéis dramáticos não é suficiente para diminuir o apelo do filme. O longa reúne elementos de diferentes gêneros para ganhar a audiência, como guerra, drama, documentário, ação e ficção científica. O grande mérito da obra de Alfonso Cuarón é, justamente, estar acima de qualquer classificação e oferecer à audiência um produto que oferece, ao mesmo tempo, reflexão e entretenimento. É impossível ficar indiferente à Filhos da Esperança.

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Review #25: RoboCop (2014)

Pra que serve um remake? Se por um lado, a decisão de refilmar uma obra já estabelecida na cultura pop pode representar a total falta de criatividade dos produtores, um filme bem feito pode significar a sobrevida da ideia original. Quando Peter Jackson trouxe ao cinema a mais recente versão de King Kong (1933) , o diretor estava fazendo mais do que entregando mais um blockbuster de verão ao mercado. O King Kong de 2005 era não só um excelente produto de entretenimento (assim como a versão original foi para sua época), como também uma homenagem à arte do cinema e uma excelente maneira de reproduzir, no novo milênio, o impacto que o longa-metragem em stop-motion trouxe em termos narrativos para o seu tempo. Por outro lado, existem filmes como A Máquina do Tempo, de 2002, que só faz arruinar o legado do clássico de ficção científica dos anos 60 ao tentar reapresentar seus conceitos com uma roupagem mais “moderna”. Em algum lugar desse espectro, encontra-se a nova versão do anti-herói concebido por Paul Verhoeven em 1987: RoboCop, do brasileiro José Padilha.

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Em Tropa de Elite e Tropa de Elite 2, Padilha mostrou ao público brasileiro como se faz um bom filme nacional sem esquecer o aspecto comercial. Os dois longas de ação estrelados por Wagner Moura foram sucesso de público e de crítica, e o talento do diretor carioca chamou a atenção dos produtores de Hollywood. Há anos tentando encontrar uma maneira (financeira, inclusive) de refilmar um de seus mais notáveis produtos, o RoboCop de Paul Verhoeven, a Metro-Goldwyn-Mayer resolver apostar em um novato na indústria norte-americana para a tarefa. Com uma autonomia surpreendente para os padrões ianques, Padilha conseguiu levar parte fundamental de sua equipe brasileira para filmar a nova versão do policial do futuro, com nomes que incluem Daniel Rezende (montador, também trabalhou no belíssimo A Árvore da Vida, de Terrence Mallick), o compositor Pedro Bromfman e o diretor de fotografia Lula Carvalho – todos de Tropa de Elite.

O filme original apresenta Alex Murphy, um honesto homem da lei, porém membro da corrupta força policial de Detroit. Ao ter seu corpo praticamente reduzido a cinzas num confronto com mafiosos, o futuro anti-herói da trama passa por um experimento robótico/mecânico/científico que o transforma em um ciborgue, parte humano, parte máquina. Ao longo do filme, Verhoeven cria um retrato cínico de uma das cidades mais perigosas e subdesenvolvidas dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que tece uma crítica sobre a sociedade americana, citando fatores como a mídia sensacionalista e até uma metáfora sobre a natureza cruel do ser humano. Tudo isso com o estilo caricato e estiloso de filmar do cineasta holandês, que dá um tom de história em quadrinhos a uma obra recheada de violência e de uma estética agressiva. Apesar de suas sequências medonhas (sem contar o desenho animado infantil e as HQs extravagantes de Frank Miller), o RoboCop de 1987 mudou a história do cinema, ganhando, ao longo dos anos, o justo título de clássico cult.

Joel Kinnaman

Como qualquer adaptação, um remake precisa prestar atenção a dois aspectos (já comentados aqui no review de O Espetacular Homem-Aranha 2): o nível de independência e o de fidelidade ao material original. O filme não pode ignorar a matéria-prima que o permite existir, mas ao mesmo tempo deve ser capaz de criar algo novo em cima disso. Poucas são as adaptações que tem sucesso em ambos os aspectos. O RoboCop de José Padilha é um raro exemplo. Ao mesmo tempo em que o cineasta brasileiro consegue imprimir sua assinatura particular ao longa – qualquer um que assistiu Tropa de Elite consegue identificar o toque do diretor, na fotografia, montagem e até mesmo nos diálogos improvisados -, ele não ignora o trabalho inesquecível de Paul Verhoeven. Quem assistiu ao RoboCop original vai ter, imediatamente, a sensação de “já vi isso antes”. Mas, da mesma maneira, a nova versão embarca por caminhos inexplorados no clássico oitentista, soando como algo totalmente novo para as gerações mais jovens.

Tudo o que fez o filme de 1987 um marco na história do cinema está aqui novamente, mesmo que em menor proporção. Por mais que este RoboCop seja mais ágil, com um visual mais “amigável” para a molecada do que o boneco de lata de Verhoeven, o espanto que o público tinha ao ver Alex Murphy sem seu capacete nos anos 80 vai ser o mesmo que as atuais gerações terão ao ver sua nova versão sem armadura. O aspecto “gore” do primeiro filme está aqui de novo, mesmo que respeitando os limites da classificação etária (13 anos, nos EUA). As discussões políticas estão novamente implícitas nos diálogos dos personagens, mas usando um gancho muito mais próximo do público moderno do que o do filme original, que hoje pode soar datado para algumas pessoas. E a ação, como era de se esperar, vai empolgar os jovens millennials assim como empolgou os meninos dos anos 80.

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Com tantas referências e seguindo o roteiro original praticamente à risca, o novo RoboCop ainda traz muita coisa nova ao personagem. Se o filme de 1987 trazia seu conteúdo crítico de forma satírica, quase como uma piada nas entrelinhas, a discussão político-social está bem mais explícita na obra de José Padilha. Assim como em Tropa de Elite, o diretor traz para a mesa todos os temas que a premissa desperta: a indústria da ciência e como os avanços da tecnologia dependem de questões mercadológicas; a ética por trás de um experimento como o do RoboCop; o conflito entre homem e máquina; a imposição da ordem por meio da intimidação; o uso de drones, robôs de guerra teleguiados que tornam obsoleta a presença de homens em campos de batalha; o que significa o ato racional de “matar” e como uma máquina pode ou não tomar tal decisão; e até perguntas mais metafísicas, como: o que nos faz humanos e nos diferencia das máquinas? O que significa matar ou morrer? Padilha deixa todas essas questões no ar e instiga o público a participar do debate, sem esquecer da ação. É uma espécie de “entretenimento inteligente”, como ele fez tão bem em suas duas obras de ficção nacionais.

O elenco é super competente, apesar de parecer bem menos expressivo e livre do que os atores brasileiros em Tropa de Elite. Problema esse que pode ser justificado pela própria escola hollywoodiana de teatro. Os Estados Unidos formam atores para diferentes mídias, com destaque para o cinema. A cultura brasileira, por sua vez, é a de formar artistas de palco, que posteriormente se adaptam a outros meios. Com isso em mente, é fácil entender como alguns atores parecem “presos” em seus roteiros. Os destaques ficam por conta do trio de protagonistas: Joel Kinnaman convence como anti-herói e como a “vítima do sistema” Alex Murphy/RoboCop; Gary Oldman, que faz o dr. Dennett Norton, molda perfeitamente seu personagem, de modo que o faz transitar pelo lado dos mocinhos e dos bandidos de maneira bem natural e humana, com seus próprios dilemas morais bem justificáveis; e o sempre ótimo Michael Keaton, que cria sobre o vilão Raymond Sellars um homem de negócios de índole questionável, mas que passa longe do psicopata irracional de sua versão original. Sem contar Samuel L. Jackson, que… bem… é Samuel L. Jackson. E isso, por si só, já vale o ingresso.

O maior mérito do novo RoboCop está em não querer, simplesmente, apagar da memória o filme original. Padilha reconhece a importância do filme de Paul Verhoeven para o cinema e, principalmente, sua perfeição enquanto obra independente. É estúpido tentar repetir o sucesso do primeiro filme, assim como seria igualmente inútil tentar simplesmente reapresentar o personagem para uma nova audiência. Entre o dilema de recriar um clássico, se provar como um cineasta de respeito no mercado de lobos norte-americano e dar ao estúdio o retorno que seu investimento merece, Padilha conseguiu criar um excelente longa. O novo RoboCop é um filme atualizado para os novos tempos, mas que faz questão de deixar claro que não tem como objetivo tomar o lugar da obra-prima que é o original.

"Dead or alive, you're coming with me"

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