Review #37: Invencível

O cinema, assim como todas as outras expressões artísticas, nasceu da necessidade humana de contar histórias. Através de imagens em movimentos, podemos comunicar-nos uns com os outros, transmitir mensagens e sentimentos, fazer rir e chorar, sofrer e alegrar. E o motor básico de qualquer boa história está em seus personagens. Quando se conta uma história sobre pessoas, que, de uma forma ou de outra, representam aspectos fundamentais da espécie humana, você tem os ingredientes para um bom filme. Fatores técnicos como direção, interpretação, iluminação, roteiro e etc. são valores secundários quando o filme é capaz de tocar seu público. E para isso não é preciso experiência ou diploma: basta ser capaz de sentir. O que Angelina Jolie prova estar apta a fazer em Invencível.

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O filme conta a história real de Louis Zamperini, ex-atleta olímpico que faleceu em 2014. Durante as Olimpíadas de 1936, na Alemanha, o jovem de família italiana defendeu as cores dos Estados Unidos até que o auge da Segunda Guerra Mundial o convocou para os campos de batalha. Durante uma missão aérea, ele e outros dois amigos foram os únicos sobreviventes de um desastre de avião que o fez vagar sobre um bote pelo Oceano Pacífico por quase 50 dias, sem comida ou água potável. Depois disso, acabou resgatado por militares japoneses, que o transformaram em prisioneiro de guerra e, não muito depois, escravo. O longa mostra como Zamperini se manteve de pé apesar de tudo pelo que passou, sem jamais ceder, até que a guerra chegou ao fim e ele finalmente pôde voltar para casa.

O grande problema de Invencível é, justamente, essa sinopse. Nada de mais acontece durante os 137 minutos de projeção, a não ser um ou outro momento de tortura mais detalhado que não coube no parágrafo anterior. O filme faz questão de reforçar, em imagens, minuto a minuto, o horror da guerra, sem deixar o espectador tirar da cabeça a ideia de como Zamperini foi um exemplo de superação. Todo o conteúdo do filme, porém, acaba aí, já que o roteiro dos irmãos Coen não segue a vida do ex-atleta após seu retorno ao solo norte-americano, como faz o livro de Laura Hillenbrand. Até aí, não é muito diferente da mesma história que cansamos de ver nas telas do cinema sobre perseverança e fé no amanhã.

Mas como sempre dizemos aqui no blog: o importante não é o quê, mas sim o como. A maneira como Angelina Jolie conta essa história é o grande diferencial de Invencível, um filme bem mais cru em sua composição do que outros do mesmo gênero. A trilha sonora aqui faz um papel secundário, sem servir de apoio emocional para o desenrolar dos fatos. O roteiro não valoriza diálogos cheios de frases de efeito ou metáforas apelativas, mas trabalha os personagens e suas relações de maneira bem mais realista do que estamos acostumados. Assim sendo, os coadjuvantes dificilmente exercem algum peso na história, e os diálogos raramente promovem algum “insight” sobre os personagens.

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O que temos aqui é um filme que valoriza a imagem acima de qualquer outro fator. Ao adaptar uma obra literária para o cinema, Angelina Jolie faz uso do principal recurso da sétima arte para recontar a mesma história, sem exagerar na “verbalização” dos fatos. A maior parte do filme é silenciosa, deixando para o espectador concluir o que se passa na cabeça do protagonista de modo instintivo. Cenas como um ataque de tubarões em alto mar, uma corrida forçada em torno do acampamento dos prisioneiros e até mesmo as agressões gratuitas sofridas pelo protagonista não têm nenhuma função narrativa a não ser relatar os fatos, quase como um documentário de cunho jornalístico. Por conta desse apelo visual, a fotografia do experiente Roger Deakins tem um enorme destaque na efetividade da narrativa do filme.

Em sua segunda experiência atrás das câmeras, Angelina Jolie demonstra talento e, ao mesmo tempo, ingenuidade. Os já citados irmãos Coen, sem falar no próprio Roger Deakins, sustentam boa parte do filme, tirando o peso do roteiro e das escolhas visuais das mãos da diretora. Esta, por sua vez, faz algumas escolhas duvidosas, como o papel de vilão para o jovem Takamasa Ishihara – que, como ator, deixa muito a desejar. A forma como o longa exerce seu papel patriota ao mostrar os americanos “bonzinhos”, vítimas dos japoneses “malvados e inescrupulosos”, revela a inexperiência de Angelina na função de condutora da narrativa – ou, para evitar qualquer injustiça, uma exigência comercial de produtores que não quiseram apostar todas as suas fichas no talento da “novata”.

Apesar disso, a escolha de um elenco jovem para demonstrar como a guerra arruinou vidas se mostra um grande acerto, assim como a ambientação e o design de produção conseguem dar um aspecto atemporal à obra. Jack O’Connell no papel principal é um dos destaques do filme, ao conseguir expressar toda a angústia, dor, sofrimento e força de vontade de seu personagem apenas através de sua interpretação, sem depender dos caprichos da direção. Um reflexo da carreira de atriz de Angelina, que dá bastante espaço e liberdade para seus atores criarem à vontade. Invencível pode não ser uma obra-prima, mas com certeza é um competente exercício de narrativa de uma cineasta que demonstra um enorme potencial para o futuro.

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