Review #36: 2001 – Uma Odisseia no Espaço

Stanley Kubrick morreu em 1999, aos 70 anos. Em vida, o diretor se dedicou a criar o filme definitivo de cada gênero em que trabalhou. Com ficção-científica não foi diferente, e em 1968 ele trouxe ao mundo o clássico que definiria para sempre os parâmetros com os quais outros cineastas iriam trabalhar. Muito antes de Christopher Nolan imaginar o futuro da exploração intergaláctica ao mesmo tempo em que ensaiava uma análise do comportamento da espécie humana, Stabley Kubrick, obviamente, já havia estado lá em 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

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O filme se inspira no livro homônimo de Arthur C. Clarke para, de uma certa maneira, contar a história da consciência humana. O primeiro seguimento, “A Aurora do Homem”, acompanha um grupo de símios lutando para defender seu espaço num planeta Terra pré-histórico. Logo depois, somos transportados para o futuro imaginado da época, em que aeronaves espaciais viajam para dentro e fora do planeta, explorando o desconhecido. Enquanto isso, o Dr. Dave Bowman (Keir Dullea) e o Dr. Frank Poole (Gary Lockwood) embarcam numa viagem para Júpiter. Ao lado deles, a inteligência artificial que comanda a missão: o computador Hal 9000 (voz de Douglas Rain).

O motivo da viagem é um estranho objeto que cruza o caminho da humanidade em diferentes momentos. No período pré-histórico, nossos ancestrais se impressionam com o repentino e misterioso surgimento de um monólito – o mesmo que surge na Lua milhões de anos depois e o mesmo que vemos no segmento final do filme. A construção que, obviamente, não tem origem na Terra, parece marcar o despertar do homem para uma nova era. A cada estágio da evolução concluído, nossa espécie tem contato com aquele “checkpoint”. Podemos creditar a origem de tal objeto a forças sobrenaturais – Deus ou qualquer outra coisa em que o espectador acreditar – ou mesmo a inteligências extraterrestres. Tudo, claro, depende da perspectiva. E é por isso que 2001 é tão emblemático.

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Ao discutir a evolução e os limites evolutivos do homem, 2001 deixa aberta a interpretação para os mais diversos pontos de vista. O filme não tem a pretensão de revelar a verdade sobre o universo, mas oferece os argumentos para todos os lados do debate. O monólito é a representação do “ponto de interrogação” que preenche as lacunas no nosso entendimento sobre a origem da espécie humana. Desse modo, o filme imagina o próximo passo: o contato com outras civilizações, a compreensão da natureza de todas as coisas, o paradoxo do espaço-tempo, etc. Kubrick prioriza a experiência da audiência ao se deparar com os mistérios do universo, sem a frieza de quem pretende responder todas as nossas dúvidas. Assim, 2001 nos faz questionar o quanto o homem é capaz de compreender a “Criação”, e o quanto nós também podemos influenciá-la.

Para estabelecer um parâmetro como ponto de vista, o filme nos apresenta seu personagem principal (não necessariamente o protagonista): Hal 9000, o “computador perfeito” que não erra, não mente e não se engana. Ou ao menos não deveria. Hal é o responsável por todas as operações da nave que leva Bowman e Poole a Júpiter. Os cosmonautas são reféns de seu julgamento, dependem de sua capacidade de processamento de dados para completarem a missão com sucesso. Hal é uma inteligência artificial, programada para parecer o mais humano possível. Em pouco tempo, entretanto, ele começa a desenvolver consciência – o que o torna tão imprevisível e até perigoso quanto qualquer homem diante do desconhecido.

Com Hal 9000, 2001 discute o eterno impulso que a raça humana tem por brincar de Deus. Ao atingir a consciência de si e se reconhecer como uma forma de vida (mesmo que artificial), a máquina passa a agir sob um suposto “instinto de sobrevivência”. A pergunta que fica é: isso é possível? Tendo sido construído por humanos, um computador é capaz de se tornar independente de sua programação? O desafio dos cientistas que trabalham com inteligência artificial é recriar o cérebro humano a partir de códigos e circuitos manufaturados. Ou seja, a ideia é fazer com que uma máquina aprenda com suas experiências e, com o tempo, seja capaz de tomar decisões conscientes e independentes de sua programação. Hal sintetiza essa ideia em um personagem que sente medo e desconfiança como qualquer humano, mas que permanece, aos nossos olhos mortais, irremediavelmente, uma máquina sem vida.

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É aí que 2001 vai mais além e questiona: o que é vida? O segmento final do filme, amplamente discutível e aberto à interpretação da audiência, propõe-se a discutir a questão. Ao olharmos o filme como um todo, podemos ver a história da evolução da espécie humana. O futuro imaginado pelo longa pode tanto reservar-nos um encontro com espécies inteligentes extraterrestres quanto com o próximo estágio do nosso desenvolvimento. Independente da sua forma de compreender o filme, o fato é que 2001 vai fazê-lo refletir por dias e dias. E isso, por si só, já é capaz de consagrá-lo como o filme mais importante da história da ficção científica.

Mas estamos falando de um filme de Stanley Kubrick que, obviamente, não fica apenas no terreno da teoria. Tecnicamente, 2001 é impecável. Os efeitos especiais utilizados na época permanecem impressionantes até os dias de hoje. Muito antes da computação gráfica, a equipe de Kubrick foi capaz de recriar paisagens pré-históricas em um fundo falso, ambientes de gravidade zero e até viagens interestelares psicodélicas usando apenas efeitos práticos, com truques de luz, sombra, espelhos, etc.

Além disso, a tecnologia imaginada para o futuro, como as vídeo-chamadas, a inteligência artificial sem um corpo físico, o design das naves interplanetárias e das colônias humanas fora da Terra parecem incrivelmente modernas, mostrando a preocupação do filme em criar uma ambientação atemporal. E tudo isso em 1968, quase 50 anos atrás. Por tudo isso, 2001 é um filme que, apesar do titulo datado e até ultrapassado, continua sendo e sempre será um marco na história do cinema, um monólito eternizado no mundo da ficção científica.

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