Review #35: Êxodo – Deuses e Reis

É interessante ver como Hollywood se movimenta através de tendências, que muitas vezes se manifestam de onde menos se espera. Depois que Darren Aronofsky desafiou os paradigmas da indústria ao recontar a história do dilúvio em Noé (2014), produtores passaram a olhar com mais atenção para os contos bíblicos. Assim, Ridley Scott (Gladiador, Cruzadas) decidiu reabrir as páginas sagradas e trazer para o público de hoje a história da libertação dos hebreus pelo profeta Moisés: Êxodo – Deuses e Reis.

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Uma das histórias mais antigas da humanidade fala sobre Moisés (Christian Bale), um hebreu que cresceu entre egípcios numa época em que o maior império da civilização escravizava o povo escolhido por Deus. O protagonista então recebe a ordem divina de se reconciliar com seus iguais liderando-os para a terra prometida de Canaã, rompendo os 400 anos de escravidão que foram a base para o império de incontáveis faraós. O principal obstáculo é Ramsés (Joel Edgerton), criado como irmão de Moisés, que não aceita ser desafiado pelos israelitas e, muito menos, por seu Deus.

O que mantém Êxodo distante do estereótipo de filme bíblico de baixo orçamento é, justamente, seu orçamento. Estima-se que a produção, filmada boa parte em cenários reais do Oriente Médio, tenha custado aos cofres das quatro produtoras envolvidas 140 milhões de dólares. Épicos como esse são especialidade de Ridley Scott, que consegue equilibrar o apelo comercial de suas obras com conteúdo inteligente e de qualidade. Assim sendo, não é surpresa que o diretor tenha feito as escolhas étnicas que fez para representar os principais personagens. Se Alien fez muito pelo feminismo, Êxodo apenas reforça a natural misoginia do mundo ocidental. Não diminui o valor do filme, mas com certeza o impede de ser classificado como “inovador” ou “revolucionário” para o tempo em que vivemos.

Assim como Noé tem o cuidado de transformar seu protagonista em uma figura reconhecível pelo público “pagão” de hoje em dia, Êxodo não se preocupa em desafiar preceitos do cristianismo e do islamismo. O objetivo aqui é contar uma boa história, deixando as incoerências religiosas e históricas para segundo plano. Moisés é retratado como um general, que organiza ideológica e taticamente seu exército de hebreus, e não como o pastor de ovelhas do qual ouvimos falar nas escolas dominicais. O personagem questiona a missão divina que recebeu, crescendo e se contorcendo de forma bastante orgânica. Em vez de um cajado místico, uma espada bem afiada. O Moisés de Christian Bale não é um profeta idealizado como o que se espera de adaptações bíblicas, mas se parece muito mais com um herói de cinema moderno, como o general Maximus de Russel Crowe em Gladiador.

Christian Bale Exodus Gods and Kings

Ao envolver-se com história e religião, Êxodo é cuidadoso para não estabelecer certezas e nem contrariar a fé de ninguém. Uma postura bem mais política e neutra do que a de Darren Aronofsky em Noé, que abraça a fantasia e a ficção científica para contar sua história. Ridley Scott faz questão de dialogar com o conhecimento cristão e islâmico, seguindo à risca (na medida do possível para um blockbuster hollywoodiano) cada passo de seu protagonista segundo a Bíblia e o Alcorão. Por outro lado, o filme abre espaço para a livre interpretação de ateus e agnósticos, que vão encontrar na figura de Moisés um líder levemente perturbado e que, como muitos de sua época, atribui significados místicos às reações naturais do meio ambiente.

O filme faz questão de justificar, de forma sutil, cada uma das ações de Deus descritas nos livros sagrados, como as pragas do Egito e a abertura do Mar Vermelho. Ainda assim, não nega por completo a natureza divina da profecia recebida por Moisés. É neste ponto que Êxodo encontra seu principal mérito, ao apresentar à audiência a figura encarnada de Deus em um menino maltrapilho e de voz forte. A escolha do ator-mirim Isaac Andrews se mostra certeira ao incorporar todo o mistério e medo que o Deus do Antigo Testamento emana, ao mesmo tempo em que suaviza suas “cruéis” ações contra o povo do Egito.

Lembrando seus tempos de Batman, Christian Bale cria um herói imponente e psicologicamente complexo, capaz de liderar uma nação e, ao mesmo tempo, demonstrar fraquezas humanas. Já Joel Edgerton nos apresenta um vilão afetado, vaidoso e com sérias crises de egocentrismo cego, que nos remetem imediatamente ao Xerxes de Rodrigo Santoro em 300 e ao imperador Commodus de Joaquin Phoenix em Gladiador. Este último, porém, muito mais complexo e contextualizado do que o antagonista de Moisés no novo filme de Ridley Scott. Ambicioso, mas humilde, o longa é eficiente como entretenimento, sem abrir mão de um roteiro inteligente. Êxodo pega o “gancho” deixado por Noé para explorar de forma mais coesa as escrituras sagradas. Próximo passo da indústria: o Novo Testamento?

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