Review #34: O Show de Truman

No livro “A República”, o filósofo Plantão sugere um conceito conhecido como a “alegoria da caverna”. A ideia é a de um grupo de pessoas presas em uma caverna vendo as sombras do mundo real projetadas em uma parede. Para eles, aquilo é tudo o que existe: toda a realidade não passa de formas bidimensionais de uma cor só. No livro “Simulacra & Simulação”, de Jean Baudrillard, essa ideia é trazida para os tempos de hoje. O autor sugere que todos nós vivemos diante de um véu que simula a realidade, através, por exemplo, de programas de TV e propaganda multimídia. Se vivemos num mundo de ilusões, o que é a verdade? Como saber o que é real? Até que ponto somos reféns ou prisioneiros voluntários dessas jaulas virtuais? São questões como essas que movem um dos filmes mais emblemáticos da carreira de Jim Carrey: O Show de Truman.

Trumanshow

Na trama, Truman Burbank (Carrey) é o personagem principal de um reality show do qual ele nem imagina fazer parte. Toda a cidade onde ele mora é um imenso set de filmagens, todos os moradores são extras e figurantes contratados, e até mesmo sua família e amigos íntimos não passam de um elenco de atores profissionais. O “Show de Truman” é exibido para o país inteiro com altos índices de audiência, acompanhando seu protagonista desde as primeiras batidas de seu coração ainda na barriga de uma mãe de aluguel anônima. Truman é um produto do entretenimento televisivo, um personagem criado para atender a demanda de uma audiência sedenta por drama e sensacionalismo. Apesar de tudo, um ser humano cheio de medos e sonhos, que pouco a pouco descobre a natureza artificial de sua realidade.

Acima de tudo, o filme dirigido por Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos) fala sobre a sociedade do consumo. O longa traz uma série de cortes mostrando as reações das pessoas que assistem ao programa ao redor do país. Como elas, nós, no suposto “mundo real”, também batemos palma e torcemos pelo personagem principal. É possível fazer um paralelo instantâneo com qualquer reality show exibido na TV. Nós nos envolvemos facilmente com o “drama” de outras pessoas presos em situações aparentemente reais, mas que não passam de um grande circo montado por uma grande empresa de comunicação. O que O Show de Truman faz é levantar as questões éticas por trás desses “zoológicos humanos”.

Afinal de contas, um grupo de jovens presos em uma casa monitorada 24hs por dia, num jogo de eliminação que envolve mentiras e relações falsas, não é muito distante de um programa como o “Show de Truman”. Nada é real ali, além do comportamento dos participantes. Qualquer Big Brother, Casa dos Artistas, A Fazenda ou Masterchef do nosso cotidiano traz semelhanças com a atração fictícia estrelada por Jim Carrey. Se somos capazes de alimentar os cofres dessas empresas explorando os dilemas particulares de pessoas como eu e você; somos capazes de dar audiência para qualquer coisa que transforme uma vida humana em um produto comercializável. O telespectador médio não para pra pensar que aquela moça, sendo exposta seminua e manipulada como uma marionete pela produção do programa, poderia ser sua filha, sua mãe ou sua irmã. Do mesmo modo que os fãs de Truman não se dão conta de que o personagem é um boneco nas mãos de uma grande corporação em busca de lucro.

showdetruman

É nesse momento que entra o personagem de Ed Harris, o criador e diretor do programa: Christof. Em certo ponto do filme, temos um vislumbre dos bastidores da produção do reality show, em que o cineasta explica sua visão do protagonista e ainda discute, por telefone, com uma ativista em defesa dos direitos humanos (vivida por Natascha McElhone). Christof enxerga Truman como um filho, alguém de quem ele cuida e com quem se preocupa. Ainda assim, ele manipula suas interações e lhe esconde da verdade a todo custo, sempre tendo como prioridade a manutenção da farsa e a continuidade do programa. Em sua defesa, ele argumenta que salvou o personagem de um mundo real muito mais cruel. O mundo de Truman é seguro, limpo e controlado, onde nada de mal poderia lhe acontecer. Em outras palavras, ele defende que a vida de Truman pode ser tão real quanto a de fora do estúdio de TV. Tudo depende do ponto de vista.

Desse modo, Christof também atua como uma crítica ao modelo messiânico de uma religião. Seu nome não deixa de ser um anagrama de “Cristo”, e seu próprio comportamento é exposto como uma crítica velada à concepção pagã do filho de Deus. O diretor cuida e ama seu “filho”, Truman. Mas, ainda assim, ele mente e lhe traz perdas, leva embora seus entes queridos e o coloca em situações arriscadas que causam graves traumas. Tudo, é claro, faz parte de um “plano maior”, um roteiro esquematizado que prevê tudo pelo que Truman deve passar por todo o programa. Nesse mundo, um incêndio acionado pela equipe de cenografia não passa de uma manifestação divina. Christof toma conta e controla a vida de seu “filho”, ao mesmo tempo em que lhe oferece um amor impalpável e o prende às limitações de sua cidade de mentira.

Tudo isso nos leva de volta à questão: o que é real? É verdade que o mundo de Truman é uma mentira e ele tem sido enganado a vida inteira. Mas o que é mentira? Se você não sabe o que é a verdade, não há como estabelecer uma comparação. É verdade também que o cenário montado para ele é seguro, e a realidade é, por vezes, muito mais cruel do que uma tempestade em alto maior orquestrada. Ainda assim, a experiência real não é mais válida do que a simulação? O que é melhor, uma mentira reconfortante ou uma verdade inconveniente? Se a definição do real depende do ponto de vista, Truman não é uma vítima, mas um privilegiado. A menos que você considere os fins capitalistas com que sua vida é exposta e manipulada ao vivo na TV.

Toda essa crítica é apresentada em O Show de Truman com muito bom humor, mas sem transformar a história em uma comédia. Jim Carrey está hilário como sempre, dando uma leveza ao personagem e, principalmente, ao tom do filme. O ator constrói seu protagonista com muito carisma e personalidade, transformando-o em um herói para a audiência. Truman não é uma vítima dramática das circunstâncias, mas uma alma que cresce, se expande, e não consegue mais ser contida dentro dos limites da cidade cenográfica. A leveza na direção de Peter Weir permite que o filme funcione tanto para quem busca uma diversão passageira quanto para interessados em um cult cheio de questões filosóficas. O Show de Truman é um retrato de uma sociedade refém da mídia, que vendeu sua alma por alguns segundos no horário nobre.

truman

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