Review #33: Interestelar

Christopher Nolan já provou, mais de uma vez, que é um dos cineastas mais talentosos de sua geração. De Amnésia a A Origem, passando por O Grande Truque e a trilogia O Cavaleiro das Trevas, o diretor tem conquistado público, crítica e até executivos com sua maneira de contar histórias. Mas assim como James Cameron, Steven Spielberg e M. Night Shyamalan, só para citar alguns exemplos, Nolan também possui alguns defeitos, os quais, com o tempo, podem significar sua ruína. Até aqui, o diretor tem evoluído, apostando em produções cada vez mais ambiciosas e surpreendentemente consistentes. E sua mania de surpreender a audiência com experiências cinematográficas fortes continua em Interestelar.

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O planeta Terra de Interestelar é um lugar condenado. Falta comida, falta água e falta ar para a população. A natureza tem insistido aos seres humanos de que sue tempo aqui acabou, mas para o cientista, engenheiro e ex-piloto aeroespacial Cooper (Matthew McConaughey), o destino da raça humana não é morrer na Terra. Pego de surpresa, o personagem se torna líder em uma missão arriscada de uma quase falida Nasa para encontrar um novo planeta potencialmente habitável, trabalhando com duas possibilidades: a de voltar para a Terra e salvar os que ficaram para trás ou começar uma colônia do zero em um novo lar. Cooper então precisa escolher entre salvar a humanidade ou apenas se reencontrar com os filhos.

A trama envolve viagens no tempo-espaço e, nesse campo, todo cuidado é pouco. Quando o objetivo é criar uma experiência realista, como no caso de Interestelar, é preciso prestar atenção se o “excesso de realismo” não atrapalha o drama. O novo longa de Christopher Nolan é uma história de pretensões épicas, claramente intencionado a impressionar a audiência com imagens lindas e um roteiro complexo. Algo parecido com o que o próprio Nolan já fez diversas vezes ao longo de sua carreira, mas dessa vez com um toque mais humano, além de proporções muito maiores. O cenário da ação não é mais dentro de um sonho compartilhado ou os teatros da século XIX, mas se estende por todo o universo, flertando com a fé e física quântica entre tensas sequências de ação. Apesar da aparente pretensão de ser “o melhor filme de todos os tempos sobre a raça humana”, há espaço para o minimalismo de dilemas pessoais. Ao contrário da maior parte da carreira de Nolan, em que a emoção dos personagens era apenas verbalizada, e não sentida no roteiro ou mesmo nas interpretações do elenco, aqui a profundidade dos sentimentos se faz bem mais presente. Mas ainda não o bastante.

Nolan até que consegue equilibrar bem a trama robótica de ficção científica com o drama pessoal, ao melhor estilo Gravidade. Destaque para a eficiente direção de atores, que faz brilhar a jovem Mackenzie Foy (de apenas 10 anos) no papel de Murph, filha do protagonista na infância. O restante do elenco é naturalmente talentoso: McConaughey, recém-saído vencedor de uma disputa pelo Oscar com outro protagonista de Nolan, Leonardo DiCaprio, conduz bem a narrativa – especialmente em uma cena, de forte carga emocional, quando seu personagem revê os rostos dos filhos no espaço. Michael Caine e Jessica Chastain também apresentam seus personagens de forma eficiente, ao contrário de Matt Damon e Anne Hathaway, em atuações genéricas.

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Apesar de aparentemente saber lidar com emoções humanas, o deslize do filme acontece quando ele insiste em verbalizar questões intimistas. Em diversas cenas, quando o roteiro sugere uma catarse emocional, uma sequência de diálogos apressados e coreografados irrompe na tela, tomando a concentração do espectador que deveria se preocupar mais com o estado emocional dos protagonistas do que com a teoria da relatividade geral. O filme se preocupa demais em explicar os conceitos filosóficos e os dilemas da história e dos personagens, como se quisesse ter certeza de que todo mundo na audiência vai conseguir acompanhar o raciocínio. Você quase consegue ouvir Christopher Nolan dizer ao fundo: “Viu só o que eu fiz e no que eu pensei aqui? É, eu sou um gênio”.

Mas o grande mérito de Interestelar consiste na solidez de sua base científica. Com o astrofísico Kip Thorne estre os produtores, e como consultor especial durante toda a produção, chega a impressionar a maneira como Nolan consegue ser fiel à ciência sem perder qualidade narrativa. Mas apenas enquanto você não pensa muito sobre o que viu. O roteiro toma diversas “liberdades poéticas” para desafiar algumas leis da física, ao passo em que brinca com o imaginário coletivo sobre os mistérios do universo. Assim, um buraco negro perde toda a pose de vilão cósmico para se transformar em um portal para outra dimensão, ignorando, por alguns segundos, conceitos básicos da física que o próprio filme assume durante boa parte da história. É como se o filme se esforçasse para parecer mais realista do que os outros do gênero, quando, na verdade, é só mais um filme – que depende de manobras narrativas fantasiosas para funcionar.

Por outro lado, Interestelar acaba tropeçando na própria ambição. Ao desafiar o desconhecido do espaço sideral, o filme se propõe a resolver as maiores questões da ciência moderna e levar a humanidade nas costas rumo à conclusão de sua jornada. Em apenas três segundos de filme, o roteiro resolve a famigerada “teoria de tudo”, unindo física quântica e relatividade, para conseguir lançar o ser humano ao próximo passo da conquista intergaláctica. O longa quase banaliza os mistérios da ciência ao resolvê-los de forma apressada, ao mesmo tempo em que foge da postura de outros filmes de deixar a conclusão aberta à interpretação. Se A Origem recebeu críticas por ter um final “ambíguo demais”, Interestelar faz questão de não deixar pontas soltas, mas, ainda assim, sem subestimar a inteligência do espectador.

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A direção de arte, aliada a uma produção que prioriza efeitos práticos acima de computação gráfica, merece um review à parte. O modo como fenômenos da natureza são mostrados – como um buraco negro e um lendário buraco de minhoca – pode impactar para sempre o modo como artistas de livros de ciência e até mesmo o cinema de ficção científica espacial pensam certos conceitos visuais. Da mesma forma que o visual frio e inóspito dos planetas alienígenas visitados pela tripulação de Cooper fogem das loucuras estéticas de outros filmes. Não há nada de especial nesses mundos, nem mesmo um nome exótico, assim como não há sinal de formas de vida extravagantes. Uma direção de arte que respeita a ciência e não tem medo de impressionar o público.

Referência confessa de Christopher Nolan, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) é e para sempre será um clássico indiscutível. O longa de Stanley Kubrick influenciou o modo como o cinema pensa o espaço sideral, indo muito além do que Georges Méliès imaginou em Viagem à Lua (1902). As descobertas da ciência mudaram a forma como a ficção imagina o futuro, mas a atmosfera “à beira do pânico”, as dúvidas existenciais e a curiosidade pelo desconhecido continuam sendo o motor para qualquer narrativa além da estratosfera. Se 2001 sugere que a mente humana é incapaz de compreender a natureza do universo, Interestelar tem a esperança de que, um dia, o homem será o mestre de toda a criação. Uma abordagem diferente, mas não menos válida.

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