Review #32: Saga Jogos Vorazes

Desde Ripley e sua luta pela sobrevivência em Alien: O Oitavo Passageiro (1979), o cinema raramente entregou heroínas tão fortes quanto a personagem de Sigourney Weaver no filme de Ridley Scott. Como já falamos aqui, o cinema comercial vive de estereótipos para cativar a audiência, de modo que é mais fácil para o público acreditar na imponência do peitoral besuntado de Arnold Schwarzenegger do que nas suaves linhas de uma Nicole Kidman, por exemplo. A mulher é sempre a donzela em perigo, algo que reforça o conceito machista de que todas elas esperam por um homem para resgatá-las e dar sentido à sua existência – no roteiro ou na “vida”. É nesse ponto que a saga Jogos Vorazes se propõe a mudar paradigmas.

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A história começa em Jogos Vorazes, de 2012, dirigido por Gary Ross. Uma produção modesta, que apostava em um talento em ascensão chamado Jennifer Lawrence, e com um veterano roteirista “tapa-buraco” de Hollywood como diretor. Adaptando um recente fenômeno da literatura infanto-juvenil, a história acontece no estado fictício de Panem. Neste mundo, o governo autoritário da Capital, liderado pelo Presidente Snow (Donald Sutherland), organiza anualmente os tais Jogos Vorazes. Trata-se de uma competição ao melhor estilo reality show, um “Big Brother” nas arenas de gladiadores da antiga Europa. Duas pessoas de cada um dos doze distritos que constituem Panem são selecionadas para matar uns aos outros em uma paisagem hostil, enquanto são televisionados para o país inteiro. É aí que entra a heroína Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence).

A trama tem todos os elementos básicos para um sucesso adolescente: romance, aventura, ação e personagens jovens estereotipados. O grande segredo de Jogos Vorazes, porém, está na força da protagonista. Katniss entra para a competição como voluntária, para proteger a irmã mais nova. Lá dentro, luta para sobreviver e se recusa a entrar em conflito com os outros competidores. Com um instinto maternal, se aproxima de todos os coadjuvantes e os protege a todo custo, colocando o bem estar do próximo como seu principal motivador. Katniss não tem superpoderes e nem age com o mote de que os fins justificam os meios. Ela é uma heroína clássica, que segue a jornada de Joseph Campbell, aprendendo com as adversidades e se tornando um símbolo da resistência ao governo opressor da Capital.

Em A Esperança, Katniss foi resgatada pela “aliança rebelde” de Panem, numa clara alusão à luta de classes que motiva o discurso de “direita versus esquerda” da saga. Ela agora é treinada pelos líderes socialistas que querem destituir Snow do poder, dando início a uma revolução em todos os 12 distritos. Assim como a Capital usa a comunicação para manter o povo sob controle – “assistam esse reality show cheio de ação, aventura e romance enquanto eu roubo a dignidade de cada um de vocês” – o chamado Distrito 13 também quer motivar a rebelião através da propaganda. Katniss se torna um símbolo do movimento, o “Mockingjay” que vai liderar a massa oprimida rumo a uma nova era de prosperidade.

É justamente nesse ponto que a saga atinge seu ápice até aqui. Em A Esperança, vemos uma heroína bem mais madura e ciente de seu papel na guerra civil de Panem. Dirigido por Francis Lawrence (que também fez os capítulos Em Chamas e A Esperança – Parte 2, que estreia ano que vem), o filme faz questão de se distanciar do gênero romance infanto-juvenil. Aqui, o contexto histórico/social é colocado em evidência, deixando o desenvolvimento das relações amorosas entre Katniss, Peeta (Josh Hutcherson) e Gale (Liam Hemsworth) em segundo plano. O que eleva o nível da discussão para outros andares.

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O mérito do filme (e da saga) consiste justamente em desconstruir essas receitas cinematográficas para uma audiência viciada. Por mais que, infelizmente, muitos jovens insistam em olhar para a tela e enxergar mais um romance como outro qualquer, o longa não se limita a satisfazer somente essa demanda. Todo o debate político está inerente ao roteiro, promovendo discussões entre os espectadores mesmo após o fim do filme. Afinal, é isso que faz um filme memorável: poder conversar sobre ele mesmo após a entrada dos créditos finais. Nem mesmo o romance segue os padrões. Katniss se encontra em um suposto triângulo amoroso, que nunca fica claro sobre o tipo de amor que trata: fraternal ou carnal. Mais um ponto para o roteiro, ambíguo o suficiente nesse aspecto.

O contexto histórico que discutimos em outras situações aqui no blog se faz sentir também em Jogos Vorazes. A nova revolução feminista que toma conta de todos os espaços artísticos e fóruns de discussão do mundo – especialmente na internet – pauta a formação de Katniss como heroína. A personagem não é materializada em forma de um símbolo sexual, de modo que nunca a vemos enfrentar o inimigo seminua ou em poses sensuais (pra não dizer eróticas), só pra alimentar os sonhos de adolescentes na puberdade. O cinema tem problemas para criar heroínas que se sustentam de forma independente, com força e presença de cena, sem a necessidade de apelar para ideais masculinizados. Pelo contrário, a protagonista aqui é bem distante das pin-ups da década de 1950, mas feminina o suficiente para não parecer um homem de saia. Katniss representa o papel cada vez maior da mulher em diferentes aspectos da sociedade, mostrando que não é preciso ter altos níveis de testosterona no corpo para ir à guerra. A personagem é tão forte e emblemática quanto qualquer protagonista masculino da ficção moderna, sem perder aquilo que a faz feminina.

Do ponto de vista técnico, dois dos três filmes até aqui têm problemas relativamente sérios. O fato de se tratar de uma história que, todo mundo sabe, vai se arrastar por quatro filmes, torna o roteiro e a direção um pouco desleixados com a montagem. Tanto A Esperança quanto Em Chamas acabam de modo abrupto, com cortes secos que dificultam a “digestão” por parte da audiência. Okay, você sabe que os filmes terão sequências, mas é justo que cada obra seja tratada como um produto independente, não? Além disso, as repetições de fórmulas no roteiro do segundo capítulo da saga, fazendo com que o longa parecesse quase um remake do primeiro, dá a sensação de que faltou criatividade à produção. Tirando alguns deslizes de produção, a saga não decepciona até aqui. Jogos Vorazes pode ser um marco positivo para as novas gerações, desde que seu público saiba tirar o melhor de sua história.

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