Review #38: Loucas pra Casar

O cinema nacional é visto com muito preconceito por grande parte dos cinéfilos de plantão. Apesar da indústria comercial (monopolizada pela Globo Filmes) dar destaque a longas como Muita Calma Nessa Hora, Vai que Dá Certo e Se Eu Fosse Você, algumas obras merecem atenção. Além dos famigerados Tropa de Elite, o Brasil já levou aos cinemas excelentes peças como Central do Brasil (1998), Cidade de Deus (2002) e O Bandido da Luz Vermelha (1968). Apesar disso, é inevitável ir ao cinema e não se decepcionar assistindo uma produção tão fraca de conteúdo e forma como Loucas pra Casar.

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Mais uma parceria entre o cineasta Roberto Santucci e atriz/humorista Ingrid Guimarães, o filme parece partir com a mesma personagem estereotipada de De Pernas pro Ar. A protagonista, Malu, é a mesma mulher bem resolvida no trabalho, mas com problemas de ordem emocional e, invariavelmente, sexual. Apaixonada pelo “homem perfeito” – moreno, alto, levemente grisalho, empresário de sucesso (leia-se “rico”) e típico galã de novela da Globo, vivido por Márcio Garcia – a personagem aos poucos vê o conto de fadas se desfazer ao descobrir que “seu homem” tem duas amantes: Lúcia (Suzana Pires), uma dançarina de boate, e Maria (Tatá Werneck), uma fanática religiosa. A atitude das três? Passar por cima da própria dignidade e disputar o amor do macho alfa da história. Como uma verdadeira disputa selvagem entre animais em busca de acasalamento e reprodução.

O filme se sustenta em estereótipos tão machistas e cheios de juízo de valor só para parecer engraçado que acaba parecendo algo como um esquete de “Zorra Total” bem longo. Num mundo onde todos os personagens vivem em classe média-alta, não têm problemas de ordem social ou econômica (o que, estranhamente, não tem nada a ver com a realidade do público-alvo), a protagonista busca se identificar com a audiência através do preceito de que “toda mulher quer casar e ter filhos, mesmo que tenta se convencer de que é muito independente para isso”. Desse modo, os gêneros que entram na mistura – romance e comédia – fazem do filme uma grande piada de si mesmo. Não há como estabelecer uma ligação com a personagem ou com aquele universo de fantasia em que ela existe, que se contradiz o tempo todo enquanto arranca risadas forçadas das pessoas na plateia. No melhor estilo sitcom, mesmo as cenas de cunho mais “sério” ou “emotivo” acabam perdendo apelo com piadas mal inseridas, que só nos fazem acreditar que, aqui, tudo é motivo para risada.

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As coadjuvantes só servem, novamente, para reforçar estereótipos e fazer cócegas no cérebro da audiência. Afinal, como qualquer peça de entretenimento banal e fútil, o filme só se presta a iludir pessoas de conteúdo igualmente banal e fútil. Lúcia é o estereótipo de “prostituta”, “safada”, ou seja lá o que a mente masculina machista de quem assiste e dá risada vai classifica-la. Já Maria é o estereótipo de “ninfeta”, “santinha”, “crente imbecil”, ou, novamente, seja lá o que a mente pagã e alienada de seus fãs catalogar. Essas etiquetas se refletem na interpretação de Suzana Pires e Tatá Werneck, que aqui trabalham com tanto empenho como quem vai ao supermercado comprar pasta de dente. Aliás, o que falta nesse filme é esforço artístico por parte dos atores, visto que os personagens bidimensionais dificilmente requerem algo mais de seus intérpretes do que o que eles já estão acostumados a fazer na TV ou outras mídias.

O terceiro ato, porém, nos reserva um plot twist digno da mente “copia e cola” dos brasileiros envolvidos no projeto. Malu – que, por sua vez, é o estereótipo da mulher histérica e obcecada pelo sexo oposto que fez a carreira de Ingrid Guimarães na telona – descobre que tanto Lúcia quanto Maria são criações de sua mente distorcida. Algo que o cinema já viu – de modo bem mais complexo e rebuscado do que aqui, obviamente – em Clube da Luta. Assim como Tyler Durden é tudo aquilo que o Narrador sempre quis ser, personificado, Maria e Lúcia são a representação física do conflito interno de Malu. Em um grau intelectualmente bem menor, é claro, o filme até que ensaia um movimento inteligente aqui. É divertido procurar na memória e ver como as pistas para a grande reviravolta foram espalhadas por todo o longa, sem a necessidade de serem repetidas em forma de flashback pra facilitar a compreensão da audiência. Quando se sabe da “verdade” sobre os personagens, todo o filme ganha uma nova interpretação. O que é louvável se pensarmos que seu público-alvo com certeza não está familiarizado com filmes que exijam o mínimo raciocínio.

Apesar do aparente esforço em refletir uma mensagem um pouco menos alienada do que sua proposta original, o filme não consegue apagar todo o estrago deixado no caminho. Seguindo a fórmula “Porta dos Fundos” de palavrões rápidos, chavões do cotidiano e até discursos de stand-up, Loucas pra Casar é uma soma de tudo o que há de pior no humor imbecil e comercialmente rentável produzido no Brasil. É claro que filmes como esse não são exclusividade nacional: Hollywood exporta esse tipo de peça “para maiores de 14 anos” aos montes todos os anos. Humor e romance são dois gêneros que não devem se misturar, mas que estúdios insistem em fazer o nome do lucro e do apelo comercial. Loucas pra Casar é o tipo de experiência que serve para aprendermos como não se deve fazer e assistir cinema.

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Review #37: Invencível

O cinema, assim como todas as outras expressões artísticas, nasceu da necessidade humana de contar histórias. Através de imagens em movimentos, podemos comunicar-nos uns com os outros, transmitir mensagens e sentimentos, fazer rir e chorar, sofrer e alegrar. E o motor básico de qualquer boa história está em seus personagens. Quando se conta uma história sobre pessoas, que, de uma forma ou de outra, representam aspectos fundamentais da espécie humana, você tem os ingredientes para um bom filme. Fatores técnicos como direção, interpretação, iluminação, roteiro e etc. são valores secundários quando o filme é capaz de tocar seu público. E para isso não é preciso experiência ou diploma: basta ser capaz de sentir. O que Angelina Jolie prova estar apta a fazer em Invencível.

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O filme conta a história real de Louis Zamperini, ex-atleta olímpico que faleceu em 2014. Durante as Olimpíadas de 1936, na Alemanha, o jovem de família italiana defendeu as cores dos Estados Unidos até que o auge da Segunda Guerra Mundial o convocou para os campos de batalha. Durante uma missão aérea, ele e outros dois amigos foram os únicos sobreviventes de um desastre de avião que o fez vagar sobre um bote pelo Oceano Pacífico por quase 50 dias, sem comida ou água potável. Depois disso, acabou resgatado por militares japoneses, que o transformaram em prisioneiro de guerra e, não muito depois, escravo. O longa mostra como Zamperini se manteve de pé apesar de tudo pelo que passou, sem jamais ceder, até que a guerra chegou ao fim e ele finalmente pôde voltar para casa.

O grande problema de Invencível é, justamente, essa sinopse. Nada de mais acontece durante os 137 minutos de projeção, a não ser um ou outro momento de tortura mais detalhado que não coube no parágrafo anterior. O filme faz questão de reforçar, em imagens, minuto a minuto, o horror da guerra, sem deixar o espectador tirar da cabeça a ideia de como Zamperini foi um exemplo de superação. Todo o conteúdo do filme, porém, acaba aí, já que o roteiro dos irmãos Coen não segue a vida do ex-atleta após seu retorno ao solo norte-americano, como faz o livro de Laura Hillenbrand. Até aí, não é muito diferente da mesma história que cansamos de ver nas telas do cinema sobre perseverança e fé no amanhã.

Mas como sempre dizemos aqui no blog: o importante não é o quê, mas sim o como. A maneira como Angelina Jolie conta essa história é o grande diferencial de Invencível, um filme bem mais cru em sua composição do que outros do mesmo gênero. A trilha sonora aqui faz um papel secundário, sem servir de apoio emocional para o desenrolar dos fatos. O roteiro não valoriza diálogos cheios de frases de efeito ou metáforas apelativas, mas trabalha os personagens e suas relações de maneira bem mais realista do que estamos acostumados. Assim sendo, os coadjuvantes dificilmente exercem algum peso na história, e os diálogos raramente promovem algum “insight” sobre os personagens.

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O que temos aqui é um filme que valoriza a imagem acima de qualquer outro fator. Ao adaptar uma obra literária para o cinema, Angelina Jolie faz uso do principal recurso da sétima arte para recontar a mesma história, sem exagerar na “verbalização” dos fatos. A maior parte do filme é silenciosa, deixando para o espectador concluir o que se passa na cabeça do protagonista de modo instintivo. Cenas como um ataque de tubarões em alto mar, uma corrida forçada em torno do acampamento dos prisioneiros e até mesmo as agressões gratuitas sofridas pelo protagonista não têm nenhuma função narrativa a não ser relatar os fatos, quase como um documentário de cunho jornalístico. Por conta desse apelo visual, a fotografia do experiente Roger Deakins tem um enorme destaque na efetividade da narrativa do filme.

Em sua segunda experiência atrás das câmeras, Angelina Jolie demonstra talento e, ao mesmo tempo, ingenuidade. Os já citados irmãos Coen, sem falar no próprio Roger Deakins, sustentam boa parte do filme, tirando o peso do roteiro e das escolhas visuais das mãos da diretora. Esta, por sua vez, faz algumas escolhas duvidosas, como o papel de vilão para o jovem Takamasa Ishihara – que, como ator, deixa muito a desejar. A forma como o longa exerce seu papel patriota ao mostrar os americanos “bonzinhos”, vítimas dos japoneses “malvados e inescrupulosos”, revela a inexperiência de Angelina na função de condutora da narrativa – ou, para evitar qualquer injustiça, uma exigência comercial de produtores que não quiseram apostar todas as suas fichas no talento da “novata”.

Apesar disso, a escolha de um elenco jovem para demonstrar como a guerra arruinou vidas se mostra um grande acerto, assim como a ambientação e o design de produção conseguem dar um aspecto atemporal à obra. Jack O’Connell no papel principal é um dos destaques do filme, ao conseguir expressar toda a angústia, dor, sofrimento e força de vontade de seu personagem apenas através de sua interpretação, sem depender dos caprichos da direção. Um reflexo da carreira de atriz de Angelina, que dá bastante espaço e liberdade para seus atores criarem à vontade. Invencível pode não ser uma obra-prima, mas com certeza é um competente exercício de narrativa de uma cineasta que demonstra um enorme potencial para o futuro.

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Review #36: 2001 – Uma Odisseia no Espaço

Stanley Kubrick morreu em 1999, aos 70 anos. Em vida, o diretor se dedicou a criar o filme definitivo de cada gênero em que trabalhou. Com ficção-científica não foi diferente, e em 1968 ele trouxe ao mundo o clássico que definiria para sempre os parâmetros com os quais outros cineastas iriam trabalhar. Muito antes de Christopher Nolan imaginar o futuro da exploração intergaláctica ao mesmo tempo em que ensaiava uma análise do comportamento da espécie humana, Stabley Kubrick, obviamente, já havia estado lá em 2001 – Uma Odisseia no Espaço.

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O filme se inspira no livro homônimo de Arthur C. Clarke para, de uma certa maneira, contar a história da consciência humana. O primeiro seguimento, “A Aurora do Homem”, acompanha um grupo de símios lutando para defender seu espaço num planeta Terra pré-histórico. Logo depois, somos transportados para o futuro imaginado da época, em que aeronaves espaciais viajam para dentro e fora do planeta, explorando o desconhecido. Enquanto isso, o Dr. Dave Bowman (Keir Dullea) e o Dr. Frank Poole (Gary Lockwood) embarcam numa viagem para Júpiter. Ao lado deles, a inteligência artificial que comanda a missão: o computador Hal 9000 (voz de Douglas Rain).

O motivo da viagem é um estranho objeto que cruza o caminho da humanidade em diferentes momentos. No período pré-histórico, nossos ancestrais se impressionam com o repentino e misterioso surgimento de um monólito – o mesmo que surge na Lua milhões de anos depois e o mesmo que vemos no segmento final do filme. A construção que, obviamente, não tem origem na Terra, parece marcar o despertar do homem para uma nova era. A cada estágio da evolução concluído, nossa espécie tem contato com aquele “checkpoint”. Podemos creditar a origem de tal objeto a forças sobrenaturais – Deus ou qualquer outra coisa em que o espectador acreditar – ou mesmo a inteligências extraterrestres. Tudo, claro, depende da perspectiva. E é por isso que 2001 é tão emblemático.

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Ao discutir a evolução e os limites evolutivos do homem, 2001 deixa aberta a interpretação para os mais diversos pontos de vista. O filme não tem a pretensão de revelar a verdade sobre o universo, mas oferece os argumentos para todos os lados do debate. O monólito é a representação do “ponto de interrogação” que preenche as lacunas no nosso entendimento sobre a origem da espécie humana. Desse modo, o filme imagina o próximo passo: o contato com outras civilizações, a compreensão da natureza de todas as coisas, o paradoxo do espaço-tempo, etc. Kubrick prioriza a experiência da audiência ao se deparar com os mistérios do universo, sem a frieza de quem pretende responder todas as nossas dúvidas. Assim, 2001 nos faz questionar o quanto o homem é capaz de compreender a “Criação”, e o quanto nós também podemos influenciá-la.

Para estabelecer um parâmetro como ponto de vista, o filme nos apresenta seu personagem principal (não necessariamente o protagonista): Hal 9000, o “computador perfeito” que não erra, não mente e não se engana. Ou ao menos não deveria. Hal é o responsável por todas as operações da nave que leva Bowman e Poole a Júpiter. Os cosmonautas são reféns de seu julgamento, dependem de sua capacidade de processamento de dados para completarem a missão com sucesso. Hal é uma inteligência artificial, programada para parecer o mais humano possível. Em pouco tempo, entretanto, ele começa a desenvolver consciência – o que o torna tão imprevisível e até perigoso quanto qualquer homem diante do desconhecido.

Com Hal 9000, 2001 discute o eterno impulso que a raça humana tem por brincar de Deus. Ao atingir a consciência de si e se reconhecer como uma forma de vida (mesmo que artificial), a máquina passa a agir sob um suposto “instinto de sobrevivência”. A pergunta que fica é: isso é possível? Tendo sido construído por humanos, um computador é capaz de se tornar independente de sua programação? O desafio dos cientistas que trabalham com inteligência artificial é recriar o cérebro humano a partir de códigos e circuitos manufaturados. Ou seja, a ideia é fazer com que uma máquina aprenda com suas experiências e, com o tempo, seja capaz de tomar decisões conscientes e independentes de sua programação. Hal sintetiza essa ideia em um personagem que sente medo e desconfiança como qualquer humano, mas que permanece, aos nossos olhos mortais, irremediavelmente, uma máquina sem vida.

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É aí que 2001 vai mais além e questiona: o que é vida? O segmento final do filme, amplamente discutível e aberto à interpretação da audiência, propõe-se a discutir a questão. Ao olharmos o filme como um todo, podemos ver a história da evolução da espécie humana. O futuro imaginado pelo longa pode tanto reservar-nos um encontro com espécies inteligentes extraterrestres quanto com o próximo estágio do nosso desenvolvimento. Independente da sua forma de compreender o filme, o fato é que 2001 vai fazê-lo refletir por dias e dias. E isso, por si só, já é capaz de consagrá-lo como o filme mais importante da história da ficção científica.

Mas estamos falando de um filme de Stanley Kubrick que, obviamente, não fica apenas no terreno da teoria. Tecnicamente, 2001 é impecável. Os efeitos especiais utilizados na época permanecem impressionantes até os dias de hoje. Muito antes da computação gráfica, a equipe de Kubrick foi capaz de recriar paisagens pré-históricas em um fundo falso, ambientes de gravidade zero e até viagens interestelares psicodélicas usando apenas efeitos práticos, com truques de luz, sombra, espelhos, etc.

Além disso, a tecnologia imaginada para o futuro, como as vídeo-chamadas, a inteligência artificial sem um corpo físico, o design das naves interplanetárias e das colônias humanas fora da Terra parecem incrivelmente modernas, mostrando a preocupação do filme em criar uma ambientação atemporal. E tudo isso em 1968, quase 50 anos atrás. Por tudo isso, 2001 é um filme que, apesar do titulo datado e até ultrapassado, continua sendo e sempre será um marco na história do cinema, um monólito eternizado no mundo da ficção científica.

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Review #35: Êxodo – Deuses e Reis

É interessante ver como Hollywood se movimenta através de tendências, que muitas vezes se manifestam de onde menos se espera. Depois que Darren Aronofsky desafiou os paradigmas da indústria ao recontar a história do dilúvio em Noé (2014), produtores passaram a olhar com mais atenção para os contos bíblicos. Assim, Ridley Scott (Gladiador, Cruzadas) decidiu reabrir as páginas sagradas e trazer para o público de hoje a história da libertação dos hebreus pelo profeta Moisés: Êxodo – Deuses e Reis.

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Uma das histórias mais antigas da humanidade fala sobre Moisés (Christian Bale), um hebreu que cresceu entre egípcios numa época em que o maior império da civilização escravizava o povo escolhido por Deus. O protagonista então recebe a ordem divina de se reconciliar com seus iguais liderando-os para a terra prometida de Canaã, rompendo os 400 anos de escravidão que foram a base para o império de incontáveis faraós. O principal obstáculo é Ramsés (Joel Edgerton), criado como irmão de Moisés, que não aceita ser desafiado pelos israelitas e, muito menos, por seu Deus.

O que mantém Êxodo distante do estereótipo de filme bíblico de baixo orçamento é, justamente, seu orçamento. Estima-se que a produção, filmada boa parte em cenários reais do Oriente Médio, tenha custado aos cofres das quatro produtoras envolvidas 140 milhões de dólares. Épicos como esse são especialidade de Ridley Scott, que consegue equilibrar o apelo comercial de suas obras com conteúdo inteligente e de qualidade. Assim sendo, não é surpresa que o diretor tenha feito as escolhas étnicas que fez para representar os principais personagens. Se Alien fez muito pelo feminismo, Êxodo apenas reforça a natural misoginia do mundo ocidental. Não diminui o valor do filme, mas com certeza o impede de ser classificado como “inovador” ou “revolucionário” para o tempo em que vivemos.

Assim como Noé tem o cuidado de transformar seu protagonista em uma figura reconhecível pelo público “pagão” de hoje em dia, Êxodo não se preocupa em desafiar preceitos do cristianismo e do islamismo. O objetivo aqui é contar uma boa história, deixando as incoerências religiosas e históricas para segundo plano. Moisés é retratado como um general, que organiza ideológica e taticamente seu exército de hebreus, e não como o pastor de ovelhas do qual ouvimos falar nas escolas dominicais. O personagem questiona a missão divina que recebeu, crescendo e se contorcendo de forma bastante orgânica. Em vez de um cajado místico, uma espada bem afiada. O Moisés de Christian Bale não é um profeta idealizado como o que se espera de adaptações bíblicas, mas se parece muito mais com um herói de cinema moderno, como o general Maximus de Russel Crowe em Gladiador.

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Ao envolver-se com história e religião, Êxodo é cuidadoso para não estabelecer certezas e nem contrariar a fé de ninguém. Uma postura bem mais política e neutra do que a de Darren Aronofsky em Noé, que abraça a fantasia e a ficção científica para contar sua história. Ridley Scott faz questão de dialogar com o conhecimento cristão e islâmico, seguindo à risca (na medida do possível para um blockbuster hollywoodiano) cada passo de seu protagonista segundo a Bíblia e o Alcorão. Por outro lado, o filme abre espaço para a livre interpretação de ateus e agnósticos, que vão encontrar na figura de Moisés um líder levemente perturbado e que, como muitos de sua época, atribui significados místicos às reações naturais do meio ambiente.

O filme faz questão de justificar, de forma sutil, cada uma das ações de Deus descritas nos livros sagrados, como as pragas do Egito e a abertura do Mar Vermelho. Ainda assim, não nega por completo a natureza divina da profecia recebida por Moisés. É neste ponto que Êxodo encontra seu principal mérito, ao apresentar à audiência a figura encarnada de Deus em um menino maltrapilho e de voz forte. A escolha do ator-mirim Isaac Andrews se mostra certeira ao incorporar todo o mistério e medo que o Deus do Antigo Testamento emana, ao mesmo tempo em que suaviza suas “cruéis” ações contra o povo do Egito.

Lembrando seus tempos de Batman, Christian Bale cria um herói imponente e psicologicamente complexo, capaz de liderar uma nação e, ao mesmo tempo, demonstrar fraquezas humanas. Já Joel Edgerton nos apresenta um vilão afetado, vaidoso e com sérias crises de egocentrismo cego, que nos remetem imediatamente ao Xerxes de Rodrigo Santoro em 300 e ao imperador Commodus de Joaquin Phoenix em Gladiador. Este último, porém, muito mais complexo e contextualizado do que o antagonista de Moisés no novo filme de Ridley Scott. Ambicioso, mas humilde, o longa é eficiente como entretenimento, sem abrir mão de um roteiro inteligente. Êxodo pega o “gancho” deixado por Noé para explorar de forma mais coesa as escrituras sagradas. Próximo passo da indústria: o Novo Testamento?

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Review #34: O Show de Truman

No livro “A República”, o filósofo Plantão sugere um conceito conhecido como a “alegoria da caverna”. A ideia é a de um grupo de pessoas presas em uma caverna vendo as sombras do mundo real projetadas em uma parede. Para eles, aquilo é tudo o que existe: toda a realidade não passa de formas bidimensionais de uma cor só. No livro “Simulacra & Simulação”, de Jean Baudrillard, essa ideia é trazida para os tempos de hoje. O autor sugere que todos nós vivemos diante de um véu que simula a realidade, através, por exemplo, de programas de TV e propaganda multimídia. Se vivemos num mundo de ilusões, o que é a verdade? Como saber o que é real? Até que ponto somos reféns ou prisioneiros voluntários dessas jaulas virtuais? São questões como essas que movem um dos filmes mais emblemáticos da carreira de Jim Carrey: O Show de Truman.

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Na trama, Truman Burbank (Carrey) é o personagem principal de um reality show do qual ele nem imagina fazer parte. Toda a cidade onde ele mora é um imenso set de filmagens, todos os moradores são extras e figurantes contratados, e até mesmo sua família e amigos íntimos não passam de um elenco de atores profissionais. O “Show de Truman” é exibido para o país inteiro com altos índices de audiência, acompanhando seu protagonista desde as primeiras batidas de seu coração ainda na barriga de uma mãe de aluguel anônima. Truman é um produto do entretenimento televisivo, um personagem criado para atender a demanda de uma audiência sedenta por drama e sensacionalismo. Apesar de tudo, um ser humano cheio de medos e sonhos, que pouco a pouco descobre a natureza artificial de sua realidade.

Acima de tudo, o filme dirigido por Peter Weir (Sociedade dos Poetas Mortos) fala sobre a sociedade do consumo. O longa traz uma série de cortes mostrando as reações das pessoas que assistem ao programa ao redor do país. Como elas, nós, no suposto “mundo real”, também batemos palma e torcemos pelo personagem principal. É possível fazer um paralelo instantâneo com qualquer reality show exibido na TV. Nós nos envolvemos facilmente com o “drama” de outras pessoas presos em situações aparentemente reais, mas que não passam de um grande circo montado por uma grande empresa de comunicação. O que O Show de Truman faz é levantar as questões éticas por trás desses “zoológicos humanos”.

Afinal de contas, um grupo de jovens presos em uma casa monitorada 24hs por dia, num jogo de eliminação que envolve mentiras e relações falsas, não é muito distante de um programa como o “Show de Truman”. Nada é real ali, além do comportamento dos participantes. Qualquer Big Brother, Casa dos Artistas, A Fazenda ou Masterchef do nosso cotidiano traz semelhanças com a atração fictícia estrelada por Jim Carrey. Se somos capazes de alimentar os cofres dessas empresas explorando os dilemas particulares de pessoas como eu e você; somos capazes de dar audiência para qualquer coisa que transforme uma vida humana em um produto comercializável. O telespectador médio não para pra pensar que aquela moça, sendo exposta seminua e manipulada como uma marionete pela produção do programa, poderia ser sua filha, sua mãe ou sua irmã. Do mesmo modo que os fãs de Truman não se dão conta de que o personagem é um boneco nas mãos de uma grande corporação em busca de lucro.

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É nesse momento que entra o personagem de Ed Harris, o criador e diretor do programa: Christof. Em certo ponto do filme, temos um vislumbre dos bastidores da produção do reality show, em que o cineasta explica sua visão do protagonista e ainda discute, por telefone, com uma ativista em defesa dos direitos humanos (vivida por Natascha McElhone). Christof enxerga Truman como um filho, alguém de quem ele cuida e com quem se preocupa. Ainda assim, ele manipula suas interações e lhe esconde da verdade a todo custo, sempre tendo como prioridade a manutenção da farsa e a continuidade do programa. Em sua defesa, ele argumenta que salvou o personagem de um mundo real muito mais cruel. O mundo de Truman é seguro, limpo e controlado, onde nada de mal poderia lhe acontecer. Em outras palavras, ele defende que a vida de Truman pode ser tão real quanto a de fora do estúdio de TV. Tudo depende do ponto de vista.

Desse modo, Christof também atua como uma crítica ao modelo messiânico de uma religião. Seu nome não deixa de ser um anagrama de “Cristo”, e seu próprio comportamento é exposto como uma crítica velada à concepção pagã do filho de Deus. O diretor cuida e ama seu “filho”, Truman. Mas, ainda assim, ele mente e lhe traz perdas, leva embora seus entes queridos e o coloca em situações arriscadas que causam graves traumas. Tudo, é claro, faz parte de um “plano maior”, um roteiro esquematizado que prevê tudo pelo que Truman deve passar por todo o programa. Nesse mundo, um incêndio acionado pela equipe de cenografia não passa de uma manifestação divina. Christof toma conta e controla a vida de seu “filho”, ao mesmo tempo em que lhe oferece um amor impalpável e o prende às limitações de sua cidade de mentira.

Tudo isso nos leva de volta à questão: o que é real? É verdade que o mundo de Truman é uma mentira e ele tem sido enganado a vida inteira. Mas o que é mentira? Se você não sabe o que é a verdade, não há como estabelecer uma comparação. É verdade também que o cenário montado para ele é seguro, e a realidade é, por vezes, muito mais cruel do que uma tempestade em alto maior orquestrada. Ainda assim, a experiência real não é mais válida do que a simulação? O que é melhor, uma mentira reconfortante ou uma verdade inconveniente? Se a definição do real depende do ponto de vista, Truman não é uma vítima, mas um privilegiado. A menos que você considere os fins capitalistas com que sua vida é exposta e manipulada ao vivo na TV.

Toda essa crítica é apresentada em O Show de Truman com muito bom humor, mas sem transformar a história em uma comédia. Jim Carrey está hilário como sempre, dando uma leveza ao personagem e, principalmente, ao tom do filme. O ator constrói seu protagonista com muito carisma e personalidade, transformando-o em um herói para a audiência. Truman não é uma vítima dramática das circunstâncias, mas uma alma que cresce, se expande, e não consegue mais ser contida dentro dos limites da cidade cenográfica. A leveza na direção de Peter Weir permite que o filme funcione tanto para quem busca uma diversão passageira quanto para interessados em um cult cheio de questões filosóficas. O Show de Truman é um retrato de uma sociedade refém da mídia, que vendeu sua alma por alguns segundos no horário nobre.

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Review #33: Interestelar

Christopher Nolan já provou, mais de uma vez, que é um dos cineastas mais talentosos de sua geração. De Amnésia a A Origem, passando por O Grande Truque e a trilogia O Cavaleiro das Trevas, o diretor tem conquistado público, crítica e até executivos com sua maneira de contar histórias. Mas assim como James Cameron, Steven Spielberg e M. Night Shyamalan, só para citar alguns exemplos, Nolan também possui alguns defeitos, os quais, com o tempo, podem significar sua ruína. Até aqui, o diretor tem evoluído, apostando em produções cada vez mais ambiciosas e surpreendentemente consistentes. E sua mania de surpreender a audiência com experiências cinematográficas fortes continua em Interestelar.

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O planeta Terra de Interestelar é um lugar condenado. Falta comida, falta água e falta ar para a população. A natureza tem insistido aos seres humanos de que sue tempo aqui acabou, mas para o cientista, engenheiro e ex-piloto aeroespacial Cooper (Matthew McConaughey), o destino da raça humana não é morrer na Terra. Pego de surpresa, o personagem se torna líder em uma missão arriscada de uma quase falida Nasa para encontrar um novo planeta potencialmente habitável, trabalhando com duas possibilidades: a de voltar para a Terra e salvar os que ficaram para trás ou começar uma colônia do zero em um novo lar. Cooper então precisa escolher entre salvar a humanidade ou apenas se reencontrar com os filhos.

A trama envolve viagens no tempo-espaço e, nesse campo, todo cuidado é pouco. Quando o objetivo é criar uma experiência realista, como no caso de Interestelar, é preciso prestar atenção se o “excesso de realismo” não atrapalha o drama. O novo longa de Christopher Nolan é uma história de pretensões épicas, claramente intencionado a impressionar a audiência com imagens lindas e um roteiro complexo. Algo parecido com o que o próprio Nolan já fez diversas vezes ao longo de sua carreira, mas dessa vez com um toque mais humano, além de proporções muito maiores. O cenário da ação não é mais dentro de um sonho compartilhado ou os teatros da século XIX, mas se estende por todo o universo, flertando com a fé e física quântica entre tensas sequências de ação. Apesar da aparente pretensão de ser “o melhor filme de todos os tempos sobre a raça humana”, há espaço para o minimalismo de dilemas pessoais. Ao contrário da maior parte da carreira de Nolan, em que a emoção dos personagens era apenas verbalizada, e não sentida no roteiro ou mesmo nas interpretações do elenco, aqui a profundidade dos sentimentos se faz bem mais presente. Mas ainda não o bastante.

Nolan até que consegue equilibrar bem a trama robótica de ficção científica com o drama pessoal, ao melhor estilo Gravidade. Destaque para a eficiente direção de atores, que faz brilhar a jovem Mackenzie Foy (de apenas 10 anos) no papel de Murph, filha do protagonista na infância. O restante do elenco é naturalmente talentoso: McConaughey, recém-saído vencedor de uma disputa pelo Oscar com outro protagonista de Nolan, Leonardo DiCaprio, conduz bem a narrativa – especialmente em uma cena, de forte carga emocional, quando seu personagem revê os rostos dos filhos no espaço. Michael Caine e Jessica Chastain também apresentam seus personagens de forma eficiente, ao contrário de Matt Damon e Anne Hathaway, em atuações genéricas.

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Apesar de aparentemente saber lidar com emoções humanas, o deslize do filme acontece quando ele insiste em verbalizar questões intimistas. Em diversas cenas, quando o roteiro sugere uma catarse emocional, uma sequência de diálogos apressados e coreografados irrompe na tela, tomando a concentração do espectador que deveria se preocupar mais com o estado emocional dos protagonistas do que com a teoria da relatividade geral. O filme se preocupa demais em explicar os conceitos filosóficos e os dilemas da história e dos personagens, como se quisesse ter certeza de que todo mundo na audiência vai conseguir acompanhar o raciocínio. Você quase consegue ouvir Christopher Nolan dizer ao fundo: “Viu só o que eu fiz e no que eu pensei aqui? É, eu sou um gênio”.

Mas o grande mérito de Interestelar consiste na solidez de sua base científica. Com o astrofísico Kip Thorne estre os produtores, e como consultor especial durante toda a produção, chega a impressionar a maneira como Nolan consegue ser fiel à ciência sem perder qualidade narrativa. Mas apenas enquanto você não pensa muito sobre o que viu. O roteiro toma diversas “liberdades poéticas” para desafiar algumas leis da física, ao passo em que brinca com o imaginário coletivo sobre os mistérios do universo. Assim, um buraco negro perde toda a pose de vilão cósmico para se transformar em um portal para outra dimensão, ignorando, por alguns segundos, conceitos básicos da física que o próprio filme assume durante boa parte da história. É como se o filme se esforçasse para parecer mais realista do que os outros do gênero, quando, na verdade, é só mais um filme – que depende de manobras narrativas fantasiosas para funcionar.

Por outro lado, Interestelar acaba tropeçando na própria ambição. Ao desafiar o desconhecido do espaço sideral, o filme se propõe a resolver as maiores questões da ciência moderna e levar a humanidade nas costas rumo à conclusão de sua jornada. Em apenas três segundos de filme, o roteiro resolve a famigerada “teoria de tudo”, unindo física quântica e relatividade, para conseguir lançar o ser humano ao próximo passo da conquista intergaláctica. O longa quase banaliza os mistérios da ciência ao resolvê-los de forma apressada, ao mesmo tempo em que foge da postura de outros filmes de deixar a conclusão aberta à interpretação. Se A Origem recebeu críticas por ter um final “ambíguo demais”, Interestelar faz questão de não deixar pontas soltas, mas, ainda assim, sem subestimar a inteligência do espectador.

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A direção de arte, aliada a uma produção que prioriza efeitos práticos acima de computação gráfica, merece um review à parte. O modo como fenômenos da natureza são mostrados – como um buraco negro e um lendário buraco de minhoca – pode impactar para sempre o modo como artistas de livros de ciência e até mesmo o cinema de ficção científica espacial pensam certos conceitos visuais. Da mesma forma que o visual frio e inóspito dos planetas alienígenas visitados pela tripulação de Cooper fogem das loucuras estéticas de outros filmes. Não há nada de especial nesses mundos, nem mesmo um nome exótico, assim como não há sinal de formas de vida extravagantes. Uma direção de arte que respeita a ciência e não tem medo de impressionar o público.

Referência confessa de Christopher Nolan, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) é e para sempre será um clássico indiscutível. O longa de Stanley Kubrick influenciou o modo como o cinema pensa o espaço sideral, indo muito além do que Georges Méliès imaginou em Viagem à Lua (1902). As descobertas da ciência mudaram a forma como a ficção imagina o futuro, mas a atmosfera “à beira do pânico”, as dúvidas existenciais e a curiosidade pelo desconhecido continuam sendo o motor para qualquer narrativa além da estratosfera. Se 2001 sugere que a mente humana é incapaz de compreender a natureza do universo, Interestelar tem a esperança de que, um dia, o homem será o mestre de toda a criação. Uma abordagem diferente, mas não menos válida.

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Review #32: Saga Jogos Vorazes

Desde Ripley e sua luta pela sobrevivência em Alien: O Oitavo Passageiro (1979), o cinema raramente entregou heroínas tão fortes quanto a personagem de Sigourney Weaver no filme de Ridley Scott. Como já falamos aqui, o cinema comercial vive de estereótipos para cativar a audiência, de modo que é mais fácil para o público acreditar na imponência do peitoral besuntado de Arnold Schwarzenegger do que nas suaves linhas de uma Nicole Kidman, por exemplo. A mulher é sempre a donzela em perigo, algo que reforça o conceito machista de que todas elas esperam por um homem para resgatá-las e dar sentido à sua existência – no roteiro ou na “vida”. É nesse ponto que a saga Jogos Vorazes se propõe a mudar paradigmas.

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A história começa em Jogos Vorazes, de 2012, dirigido por Gary Ross. Uma produção modesta, que apostava em um talento em ascensão chamado Jennifer Lawrence, e com um veterano roteirista “tapa-buraco” de Hollywood como diretor. Adaptando um recente fenômeno da literatura infanto-juvenil, a história acontece no estado fictício de Panem. Neste mundo, o governo autoritário da Capital, liderado pelo Presidente Snow (Donald Sutherland), organiza anualmente os tais Jogos Vorazes. Trata-se de uma competição ao melhor estilo reality show, um “Big Brother” nas arenas de gladiadores da antiga Europa. Duas pessoas de cada um dos doze distritos que constituem Panem são selecionadas para matar uns aos outros em uma paisagem hostil, enquanto são televisionados para o país inteiro. É aí que entra a heroína Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence).

A trama tem todos os elementos básicos para um sucesso adolescente: romance, aventura, ação e personagens jovens estereotipados. O grande segredo de Jogos Vorazes, porém, está na força da protagonista. Katniss entra para a competição como voluntária, para proteger a irmã mais nova. Lá dentro, luta para sobreviver e se recusa a entrar em conflito com os outros competidores. Com um instinto maternal, se aproxima de todos os coadjuvantes e os protege a todo custo, colocando o bem estar do próximo como seu principal motivador. Katniss não tem superpoderes e nem age com o mote de que os fins justificam os meios. Ela é uma heroína clássica, que segue a jornada de Joseph Campbell, aprendendo com as adversidades e se tornando um símbolo da resistência ao governo opressor da Capital.

Em A Esperança, Katniss foi resgatada pela “aliança rebelde” de Panem, numa clara alusão à luta de classes que motiva o discurso de “direita versus esquerda” da saga. Ela agora é treinada pelos líderes socialistas que querem destituir Snow do poder, dando início a uma revolução em todos os 12 distritos. Assim como a Capital usa a comunicação para manter o povo sob controle – “assistam esse reality show cheio de ação, aventura e romance enquanto eu roubo a dignidade de cada um de vocês” – o chamado Distrito 13 também quer motivar a rebelião através da propaganda. Katniss se torna um símbolo do movimento, o “Mockingjay” que vai liderar a massa oprimida rumo a uma nova era de prosperidade.

É justamente nesse ponto que a saga atinge seu ápice até aqui. Em A Esperança, vemos uma heroína bem mais madura e ciente de seu papel na guerra civil de Panem. Dirigido por Francis Lawrence (que também fez os capítulos Em Chamas e A Esperança – Parte 2, que estreia ano que vem), o filme faz questão de se distanciar do gênero romance infanto-juvenil. Aqui, o contexto histórico/social é colocado em evidência, deixando o desenvolvimento das relações amorosas entre Katniss, Peeta (Josh Hutcherson) e Gale (Liam Hemsworth) em segundo plano. O que eleva o nível da discussão para outros andares.

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O mérito do filme (e da saga) consiste justamente em desconstruir essas receitas cinematográficas para uma audiência viciada. Por mais que, infelizmente, muitos jovens insistam em olhar para a tela e enxergar mais um romance como outro qualquer, o longa não se limita a satisfazer somente essa demanda. Todo o debate político está inerente ao roteiro, promovendo discussões entre os espectadores mesmo após o fim do filme. Afinal, é isso que faz um filme memorável: poder conversar sobre ele mesmo após a entrada dos créditos finais. Nem mesmo o romance segue os padrões. Katniss se encontra em um suposto triângulo amoroso, que nunca fica claro sobre o tipo de amor que trata: fraternal ou carnal. Mais um ponto para o roteiro, ambíguo o suficiente nesse aspecto.

O contexto histórico que discutimos em outras situações aqui no blog se faz sentir também em Jogos Vorazes. A nova revolução feminista que toma conta de todos os espaços artísticos e fóruns de discussão do mundo – especialmente na internet – pauta a formação de Katniss como heroína. A personagem não é materializada em forma de um símbolo sexual, de modo que nunca a vemos enfrentar o inimigo seminua ou em poses sensuais (pra não dizer eróticas), só pra alimentar os sonhos de adolescentes na puberdade. O cinema tem problemas para criar heroínas que se sustentam de forma independente, com força e presença de cena, sem a necessidade de apelar para ideais masculinizados. Pelo contrário, a protagonista aqui é bem distante das pin-ups da década de 1950, mas feminina o suficiente para não parecer um homem de saia. Katniss representa o papel cada vez maior da mulher em diferentes aspectos da sociedade, mostrando que não é preciso ter altos níveis de testosterona no corpo para ir à guerra. A personagem é tão forte e emblemática quanto qualquer protagonista masculino da ficção moderna, sem perder aquilo que a faz feminina.

Do ponto de vista técnico, dois dos três filmes até aqui têm problemas relativamente sérios. O fato de se tratar de uma história que, todo mundo sabe, vai se arrastar por quatro filmes, torna o roteiro e a direção um pouco desleixados com a montagem. Tanto A Esperança quanto Em Chamas acabam de modo abrupto, com cortes secos que dificultam a “digestão” por parte da audiência. Okay, você sabe que os filmes terão sequências, mas é justo que cada obra seja tratada como um produto independente, não? Além disso, as repetições de fórmulas no roteiro do segundo capítulo da saga, fazendo com que o longa parecesse quase um remake do primeiro, dá a sensação de que faltou criatividade à produção. Tirando alguns deslizes de produção, a saga não decepciona até aqui. Jogos Vorazes pode ser um marco positivo para as novas gerações, desde que seu público saiba tirar o melhor de sua história.

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